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3 Jun 2016
Discurso no Jubileu dos Sacerdotes
Discurso de D. Jorge Ortiga, no Jubileu dos Sacerdotes.
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  © Jorge Oliveira

A proclamação de um Ano da Misericórdia não pode restringir-se a momentos celebrativos. Estes são importantes, é verdade. Mas devem tornar-se eficazes suscitando uma renovação pessoal, em propósitos assumidos, que, posteriormente, deixarão marcas na Igreja.

O dia de hoje deve interpelar-nos a partir de um exercício de introspecção pessoal. Entramos no mundo das nossas convicções pessoais para as confrontarmos com a verdade que as alimenta e encararmos a vida com um sentido diferente. “Ex corde ad mundum”. Do interior para o mundo eclesial e, por este, para uma presença sacramental num mundo que necessariamente nos coloca em questão. Três dimensões complementares mas integradoras para uma vida feliz e plenamente realizada: 1. Eu, na minha autenticidade e fidelidade ao baptismo e ordenação sacerdotal; 2. A Igreja num ministério alegre e perenemente anunciador; 3. O mundo como espaço de diálogo onde o amor deve ser plantado segundo a lógica comprometedora da semente do Evangelho.

Permiti que sublinhe cinco princípios extraídos do “Rosto da Misericórdia”.

1. “Jesus é o rosto da Misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese.” 

Somos homens chamados para O seguir: “Vem e segue-me” (Mt 19, 21). Cada dia da nossa vida é um momento de graça para esta atitude de discipulado. O itinerário que Cristo nos propõe é a Sua própria vida e isso exige a nossa contemplação. Determo-nos para compreender e não ficar em figuras distorcidas. Sabemos bem que há imagens de Cristo que desfiguram a pastoral. Entraram nos nossos critérios pessoais e condicionam tudo o resto. Nem sequer nos apercebemos. Como é importante a oração de escuta, o sereno exame de consciência, a festa da direcção espiritual e da reconciliação.

O Ano da Misericórdia é, assim, esta graça para nos confrontarmos com Cristo e com o seu verdadeiro rosto.

2. “Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmo sinal eficaz do agir do Pai.” (MV3). 

Este é um desses momentos e cada um de vós saberá intuir outros caminhos para ir ao encontro de Cristo Misericórdia. Importa deixar-se conduzir e deixar-se tocar pela graça de Deus que se manifesta numa miríade de sinais. Importa ouvir a voz do Espírito que sopra como quer e de onde quer. E cada um ouve a melodia que mais o sensibiliza. Não nos distraiamos pensando noutras coisas.

Qual o resultado deste exercício interior e verdadeiramente personalizado? Cada um com as suas qualidades e vontade de eliminar os defeitos verá o que lhe falta para ser “sinal eficaz” do agir do Pai. A nossa pastoral é esta: no atendimento, nas celebrações, na formação ou na gestão global do ministério fazer com o que permaneça seja o “agir do Pai”. O meu agir humano, cristão, sacerdotal coincide com o agir do Pai. Quem nos julga é só o amor de Cristo. Mas, ao mesmo tempo, a pastoral pode estar a estimular-nos para uma vida diferente.

3. “A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e no testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo.” (MV 10).

Nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pelo amor misericordioso e compassivo. A nossa conduta de pastores é a de donos da messe ou então a de servos dispostos a dar a vida pelas ovelhas? Apegamo-nos ao rigorismo canónico e ao moralismo seco ou, pelo contrário, somos fiéis à doutrina da Igreja mas dispostos a acolher a diversidade das pessoas, a fazer caminho com elas num percurso de qualidade corresponsável? Conhecemos a vida das pessoas e preocupamo-nos por as ajudar a discernir? Tornamos mais duro o quotidiano das pessoas ou alivia-mo-lo com a compreensão de quem nunca condena as pessoas mas alerta, carinhosamente, para os erros? Como corrigimos os que erram? Consolamos os aflitos ou colocamos mais peso aos ombros já magoados por tantas dores? Acreditamos mais no “ex opere operantis” ou no “ex opere operato” Seremos capazes de consolidar os dois sabendo que não me estou a referir à teologia sacramental mas às atitudes concretas da vida pastoral. O clericalismo pode estar, talvez disfarçado, em muitas palavras e atitudes. Somos todos povo peregrino e, tal como no tempo de Moisés, teremos de compreender o cansaço da caminhada e encontrar luz na subida ao monte para estar face a face e aí ouvir as orientações.

Subir ao monte para discernir o caminho do êxodo deve significar a vontade de compreender melhor os problemas e reconhecer que sabemos muito pouco sobre as respostas a dar. Só juntos, em momentos diversificados de convívio e de reflexão, em arciprestado ou diocese, e aceitando uma formação permanente que englobe todos os sectores da vida humana, encontraremos a luz que emerge da nuvem que outrora orientava o povo.

Moisés ouviu o conselho do sogro e escolheu anciãos para repartir os encargos da condução do povo. Ouviu, escolheu e confiou e a sua missão tornou-se adequada àquele momento. Quando saiu do Egipto encontrava-se sozinho a conduzir o povo. Mas no fim da jornada era já um “corpo”. Agir em corpo e mostrar que somos imagem da Trindade é caminho profético para a Igreja de hoje. Uma Igreja que tem a sua arquitrave na misericórdia, que é capaz de aceitar a diversidade, que acredita no valor do perdão mútuo e que se manifesta, enquanto irradiação das águas que saem do templo, nos ambientes profanos.

4. “Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (MV 12).

Não é necessário tecer qualquer comentário. Basta colocar-se em questão. Sou oásis da misericórdia no lugar onde vou tecendo a minha existência sacerdotal? A misericórdia tem lugar entre os sacerdotes? É motor de possíveis reconciliações ou impulso de aproximação que destrói relações frias ou apegadas a atitudes resultantes de momentos ou palavras menos felizes que existem na vida de todos? E com as pessoas que nos procuram por causa de problemas originados por nós? Preferimos exigências burocráticas, económicas, morais ou o momento de interpelação serena para repensarem a vida e regressarem à Casa do Pai onde o ambiente do abraço paterno esquece e faz festa? Oásis ou muros?

5. “Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática…”

A Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com a misericórdia e a tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, no hábito que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs, privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade”.

Convido-vos a que cada um se coloque diante do logótipo deste ano da Misericórdia. Foi o que fiz logo que o vi. Parece-me a imagem do Bom pastor para o hoje da Igreja. As ovelhas quase que não existem e quando falamos delas é necessário explicar a que nos referimos. Aqui é o Pastor que carrega o homem ferido. Não foi fácil o encontro com ele. Perturbou os esquemas. Imagino que tenha sido difícil coloca-lo aos ombros. E carregar com ele foi tarefa complicada. Mas sugestiva e elucidativa é que dos dois surgem duas cabeças com três olhos. O olhar de cada um não se perde mas identificam-se para ver o caminho a percorrer.

6. Santuário da Misericórdia Sacerdotal

Acolhimento em vez de simples atendimento;
Atenção personalizada em vez de mera burocracia;
Serviço alegre em vez de simples profissionalismo;
Vivência da fé em vez de ritualismo;
Alegria no ministério em vez de rotina;
Fidelidade às promessas sacerdotais em vez de adaptação ao mundo;
Gastar a vida pelo Reino em vez da satisfação pelos mínimos.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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