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14 Set 2014
Cristãos precisam-se!
D. Jorge Ortiga presidiu no dia 14 de Setembro, pelas 11h00, à eucaristia da Peregrinação ao Santuário da Penha, em Guimarães.
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Por feliz coincidência, o santuário da Penha recebeu por estes dias a exposição “As cruzes floridas da missão”,exposição essa que está intimamente ligada à festa da Exaltação da Santa Cruz que hoje celebramos. É na cruz do Senhor e no Senhor da cruz que queremos fixar o nosso olhar sedento de respostas. Como pode uma cruz ser florida e bela quando o profeta Isaías – falando do Servo de Javé – diz que o «servo cresceu [...] sem figura nem beleza»? (Is 53, 2). Proponho que nos sentemos aos pés da cruz a escutar o monge beneditino e poeta Daniel Faria: “cruz, rosa dos ventos, sem direcção que não seja o centro”. A cruz é florida apenas quando nos concentramos no crucificado. Bem sabemos que “fomos curados pelas suas chagas” (Is 53, 5), e, por causa disso, e apenas por isso, “salve, ó cruz, ó árvore da vida, onde por Cristo a morte foi vencida”, como cantou Manuel Faria.

As chagas de Cristo, tão duras para o nosso olhar, revelam as nossas próprias enfermidades. Deixam-nos suspensos numa cruz, quase com a sensação de “não termos onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20): ódio, desespero, ciúmes, egoísmo, indisponibilidade, desemprego, fome, solidão, dividas, doenças. Mas, ao mesmo tempo, dessas feridas abertas “brotaram o sangue e a água” (Jo 19, 34) que em todas as eucaristias recolhemos no cálice para nossa salvação.

A festa da exaltação da Santa Cruz tem a sua origem mais remota no ano de 326 quando Sta. Helena, mãe do imperador Constantino, encontrou em Jerusalém a Cruz do Senhor. De imediato construiu a Basílica da Anástasis (dedicada no dia 13 de Setembro de 335) e lá a colocou (no dia 14 de Setembro de 335) para adoração. Dramaticamente parece que hoje revivemos os dias de cruz na Terra Santa. A par dos nossos irmãos franciscanos na Terra Santa, diversos cristãos árabes têm denunciado a cruel perseguição que milhares de cristãos estão a sofrer nesse território. Não podemos mais silenciar estes crimes. Assim como também não podemos ficar indiferentes à perseguição que os jihadistas estão a fazer aos cristãos. A violência gratuita corrói qualquer projecto de esperança e de paz. É, por isso, necessário unirmos as nossas vozes para pedir o fim da “violência insensata”, como lembrou o Papa Francisco. Mas há mais cruzes e ao nosso lado. Aos cristãos compete fazer com que a luz da fé chegue lá e lhes dê um sentido.

O cenário nacional e internacional deveria fazer-nos tomar consciência do quanto é importante que a fé entre nos valores da cultura. O nosso programa pastoral diz-nos que é urgente que a fé se transforme em vida e transforme a nossa vida,principalmente nos ambientes em que estamos presentes. Trata-se de fazer com que a fé seja vivida. Como diz o belíssimo texto da carta de Tiago, “a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta” (Tg 2, 17). Esta frase recorda-nos que fé e obras em circunstância alguma deverão ser dissociadas. Após termos celebrado e professado a fé, é necessário que ela se faça vida na nossa vida e que quem olha para nós consiga dizer que a nossa vida é uma vida de fé. Mas como? Como viver com coerência os princípios cristãos?

A Carta a Diogneto – uma jóia da antiguidade – é, sem margem para dúvidas, um precioso documento que relata a experiência da Igreja primitiva no meio da cultura vigente. Diz a carta que «os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costume». Os cristãos, pelo contrário, «habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros», isto é, são cidadãos genuínos que procuram, com os seus valores, transformar a sociedade a partir de dentro. Daí que, como conclui o autor, “são eles [os cristãos] que sustêm o mundo”.

Recordo às comunidades os quatro ambientes a serem transformados a partir de dentro: família, cultura, economia e política.

1. A família. O Papa Francisco tem, nos últimos meses, reclamado a atenção do mundo para esta célula estruturante da sociedade, denunciando que a família “atravessa uma crise cultural profunda” e que diversos perigos ameaçam a estabilidade dos vínculos familiares. Caros cristãos, a sociedade coloca-nos hoje diversos desafios e exige de nós respostas equilibradas e transformadoras. Teremos, por isso, de reflectir sobre o amor conjugal, a fecundidade e natalidade, o respeito pela vida humana, o matrimónio, a memória das gerações e tantas outras questões essenciais.

2. A cultura. A cultura, ou os valores partilhados, é aquilo que de mais precioso existe para a construção da sociedade. Convém não ignorar que a cultura é tudo aquilo que sustenta a identidade de um povo. Assim, é conveniente reflectir, por exemplo, sobre estilos de vida, educação, arte, comunicação e até mesmo religião. Estes são alguns dos pilares sociais estruturantes a vitalizar pela fé.

3. Economia. Creio que não restam dúvidas sobre o impacto que a economia tem na nossa vida quotidiana. A actividade económica que visa o mero lucro pessoal e promove a exclusão e desigualdade social não pode ser tolerada. Este género de economia mata. Mas permitam-me uma pergunta incómoda: onde está a voz profética dos cristãos envolvidos profissionalmente no mundo da economia? Temos de apresentar modelos alternativos e reflectir sem receios sobre o futuro do nosso país.

4. Política. A constituição pastoral Gaudium et Spes – que gostaria que este ano fosse reflectida por toda a diocese – recorda-nos que “a comunidade política existe em vista do bem comum” (GS 74). Deverá a Igreja como instituição fazer política? Se a entendermos no sentido partidário, certamente que não. Mas a Igreja entendida como o conjunto dos cristãos deve ser construtora activa da pólis, isto é, todos os cristãos devem pautar-se pela excelência da sua vida e não ter medo das suas propostas de transformação do bem comum.

Rezemos para que estes desafios estejam presentes na acção pastoral da Arquidiocese, consciente de que a interioridade (a fé) sem compromisso social (obras) fica incompleta.

Não gostaria de concluir este momento sem deixar uma palavra de conforto, de solidariedade e de fé aos familiares das vítimas mortais do trágico acidente no Rali Sprint de Guimarães. Sei que vivem momentos de dor, angústia, sofrimento, de cruz... mas sofremos convosco e acreditai que a Senhora da Penha nos dá força para que a nossa vida seja transformada pela fé e o mundo queira experimentar a força do cristianismo.


Santuário da Penha, 14 de Setembro de 2014

+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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