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4 Nov 2015
Pastoral do turismo: identidade e missão?
Discurso na Conferência do 2º Encontro Nacional da Pastoral do Turismo
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Introdução: nova etapa da evangelização

Quero situar a minha reflexão no âmbito do Ano da Misericórdia, cuja abertura se aproxima. Nada melhor para o fazer do que chamar a atenção para uma citação da Misericordiae Vultus (o Rosto da Misericórdia), a Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Diz o Papa: “Escolhi a data de 8 de Dezembro porque é cheia de significado na história recente da Igreja. Com efeito, abrirei a Porta Santa no cinquentenário da conclusão do Concílio Ecuménico Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento. Começava então, para ela, um percurso novo da sua história. Os Padres, reunidos em concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível. Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova. Uma nova etapa na evangelização de sempre. Um novo compromisso para todos os cristãos de testemunharem, com mais entusiasmo e convicção, a sua fé. A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do pai.”

O turismo tornou-se num fenómeno de massas típico da nossa época, que é totalmente diferente de há vários anos. Entrou na mentalidade das pessoas e começa a ser uma realidade cultural, psicológica e económica. O acréscimo dos conhecimentos e a vontade de conhecer outras culturas, a par do crescimento do tempo livre e possibilidades económicas, fez nascer um paradigma cultural do qual não podemos fugir. Também o olhar psicológico, motivado pelas coordenadas da sociedade hodierna (as implicações da industrialização fundada na rotina, o urbanismo despersonalizante e marcado pelo anonimato) que são geradoras de cansaço e depressão, solicitam distensão, distracção, mudança de ambiente. Também a realidade económica, fruto de um melhor bem-estar, é factor de um desenvolvimento local que não pode ser ignorado e, por isso, entra sempre nas agendas dos políticos e nos programas de empresas.

A Igreja deve regressar, sempre, ao essencial. Não se coloca no centro mas olha para a Trindade, como sua origem e meta, e sabe que nada a pode afastar da responsabilidade de ser no mundo sacramento de Deus, sinal do amor do Pai, testemunhado pela vida do Filho e inspirado na concretização da permanente acção do Espírito Santo. Para isto impõe-se uma reconversão pastoral a partir de uma nova eclesiologia, sempre de timbre Trinitário. A Igreja tem de falar de Deus mas num registo compreensível ao Homem moderno, sabendo estar nos lugares onde ele, homem moderno, se encontra. Apenas esta atitude permite à Igreja evitar, conscientemente, a cidadela fortificada onde se tinha refugiado. A Igreja tem de regressar à rua para, como Cristo, percorrer os caminhos dos homens, deixando aí o odor do Evangelho, ou seja, o amor testemunhado.

Este sair de si para percorrer os caminhos dos homens faz com que a Igreja não só não tenha medo de os assumir mas ouse transformar os possíveis riscos em oportunidades para a evangelização.

1. A pastoral do turismo presente nos Documentos

A Igreja, sempre solícita ao fenómeno do turismo, promoveu um conjunto de orientações para a Pastoral do Turismo a partir da ideia-mestra do acolhimento. Em 1967, o Papa João Paulo VI criou, junto da Congregação para o Clero, e isto já mostra a grande evolução ou passagem de um turismo sacramental para um turismo integral, um Ofício com o encargo de garantir a assistência religiosa às pessoas.

Em 1969, a Congregação para o Clero publicou o Diretório Geral para a Pastoral do Turismo, com o título Peregrinans in terra. O dinamismo do turismo levou a novas orientações tendo presente novas tendências: a integração do turismo na vida ordinária das pessoas e uma maior consciência sobre as repercussões na vida quotidiana das pessoas e das comunidades.

Neste período, a pastoral do turismo era essencialmente orientada para o acolhimento, permitindo aos turistas a “prática” das obrigações cristãs, assim como o “aspecto moral” nos cuidados que esta vertente implica.

Em 1970, é publicado o Motu Próprio Apostolicae Caritatis onde se dá vida à Comissão Pastoral para as Migrações e Turismo. Daqui surgiram as “Orientações para a Pastoral do Turismo” (Junho de 2001), publicado agora já pelo Pontifício Conselho que entretanto fora constituído. Dessa publicação surgiram um conjunto de orientações que ainda hoje devem ser consideradas como norteadoras da Pastoral do Turismo. Não me detenho. Ouso apenas elencar os capítulos.

Introdução (n. 1-2)

I. A realidade do turismo hoje (nº 3-7)
1) Turismo e tempo livre (nº 4-5)
2) Turismo e pessoa (nº 6-10)
3) Turismo e sociedade (nº 11-13)
4) Turismo e Teologia (nº 14-17)

II. Objectivos Pastorais (nº 18-30)
1) Acolhimento (nº 19-21)
2) Viver cristãmente o turismo (nº 22-29)
3) Colaboração entre Igreja e sociedade (nº 30)

III. Estruturas pastorais (nº 31-35)
1) Pontifício Conselho da pastoral para os Migrantes e os itinerantes (nº 32)
2) As Conferências Episcopais (nº 33)
3) As Dioceses (nº 34)
4) As Paróquias (nº 35)

Conclusão (nº 36)

Nestas orientações encontramos o suporte para a Pastoral do Turismo. As mensagens dos Santos Padres e a realização de variados eventos ofereceram algumas referências complementares. O essencial está aqui. Penso merecer uma atenção particular o capítulo sobre os objectivos da Pastoral do Turismo. Para compreender a sua missão e identidade, basta reflectir sobre cada uma das palavras e ideias aí expressas. Talvez seja oportuno sublinhar o que orientações referem em relação aos objectivos. Vale a pena dissecar este número com reflexões particulares.

“O mundo do turismo constitui uma realidade difusa e multiforme que exige uma atenção pastoral específica. A finalidade cultural da pastoral do turismo é suscitar as condições óptimas que ajudem o cristão a viver a realidade do turismo como momento de graça e salvação. O turismo pode ser considerado, sem dúvida, como um dos novos areópagos de evangelização, um daqueles “vastos campos da civilização contemporânea e da cultura, da política e da economia”, onde o cristão é chamado a viver a sua fé e a sua vocação missionária. Este objectivo global indica que a pastoral do turismo deve ser incluída no conjunto das missões pastorais da Igreja. Por isso, a pastoral do turismo deve inscrever-se organicamente na pastoral ordinária e coordenar-se com os outros sectores, como a família, a escola, os jovens, a promoção social, a gestão dos bens culturais, o ecumenismo.

A comunidade cristã local, que tem na paróquia a sua expressão mais directa, é o lugar onde se desenvolve a pastoral do turismo. Na comunidade local, de facto, é oferecido ao turista o acolhimento cristão que o acompanha na sua vida de crente e é oferecida a hospitalidade a cada visitador sem distinção; nela educa-se o cristão para a viagem ou forma-o para a actividade lavorativa no turismo. O empenho da comunidade predispõe a estabelecer vínculos de colaboração para promover os valores humanos e espirituais que o turismo pode favorecer. Cada um destes importantes aspectos requer uma atenção diferenciada e participada, a qual com maior ou menor urgência pode variar segundo as circunstâncias do lugar e as possibilidades da comunidade local” (orientações nº 18).

Resumindo e sublinhando as ideias fundamentais:

  • O turismo é uma realidade difusa e multiforme a exigir uma pastoral específica
  • A finalidade é proporcionar aos cristãos – e alargando os horizontes para o turismo global – a oportunidade para viver o turismo como momento de graça
  • Torna-se um verdadeiro areópago de Evangelização para viver a fé e a vocação missionária
  • A Pastoral do Turismo tem de inscrever-se organicamente na pastoral ordinária e coordenar-se com todos os outros sectores
  • É na comunidade local (paróquia) que deve se desenvolver a Pastoral do Turismo
  • Aí se oferece o acolhimento cristão, vivendo a hospitalidade para com todos sem excluir ninguém
  • Aí se educa o cristão para viajar assim como para uma actividade lavorativa no turismo com esta consciência evangelizadora
  • Aí se aprende a estabelecer vínculos de colaboração
  • Cada um destes aspectos merece uma atenção diferenciada e participada que varia de harmonia com as circunstâncias do lugar e capacidades das comunidades

Pode parecer que este documento só considera o turismo que os cristãos fazem. Com os elementos que elenca responsabiliza a comunidade pelo turismo global.

Hoje, o turismo tornou-se um facto antropológico que exige uma preocupação pastoral nova por parte da Igreja. O turismo não é algo unívoco mas encontramo-nos perante uma pluralidade de pontos de vista, no turismo em geral e também no turismo religioso. Indiscutível é que já não é uma realidade isolada e independente da vida da sociedade e da história das nações. A Igreja, fiel ao princípio fundamental da centralidade da pessoa humana não esquece a sua vocação transcendente mas, simultaneamente, tem consciência da sua debilidade pecadora. Nesta preocupação e atenção, a Igreja quer tornar o turismo, para quem nele trabalha e os que são a razão estruturante da sua existência, uma experiência humana no sentido integral da palavra.

Partindo deste alicerce, a pastoral procura aproximar o turismo da realidade da fé como estímulo à vivência do mesmo num contexto de vida cristã. Alguns pastoralistas sintetizam esta exigência dizendo que o tempo turístico não pode ser um tempo “entre parêntesis”.

2. Uma realidade nova

Fixemo-nos no turismo integrado nesta nova etapa da evangelização.

A história manifesta-nos uma evolução que poderemos sintetizar num quadro que aborda as diversas hipóteses a partir da peregrinação para chegar a um conjunto de iniciativas marcadas pelo emotivo e passageiro e pela curiosidade dum conhecimento meramente exterior dos espaços sagrados. Corremos o risco de reduzir o verdadeiro alcance do turismo religioso. Como pretendo, só e apenas, deixar alguns elementos para reflexão futura, partilho a síntese tripartida elaborada por Nicolá Costa, já em 2002, em "Appunti sul turismo religioso”.

No esquema A, encontramos Deus no vértice e o Homem numa experiência verdadeiramente religiosa (religare) de um encontro desejado com Deus, através de uma experiência com o sagrado, expresso nos Santos ou mistérios celebrados e tudo através de uma atitude de peregrinação onde o homem se coloca em ambiente de procura perante Deus ou o divino.

No esquema B, Deus continua no vértice mas a Ele associa-se o Homem, não por desejo de autonomia, mas desejo de intimidade. Deus e o Homem encontram-se nas maravilhas da natureza e na delícia das obras artísticas criadas pelo mesmo. O sagrado e o profano dos elementos exteriores, quase que se confundem na compreensão autêntica de um e de outro e conseguem expressar-se em simultâneo e de um modo harmonioso. Há uma leitura e visão que se torna voz de alguém que pode comunicar uma mensagem que deveria ser acolhida. Esta é a experiência do Turismo Religioso autêntico. Não é neutro nem proselitista. Fala. Explica-se, no presente e passado, e pode provocar um entendimento intelectual, cultural e, sobretudo, religioso.

No esquema C, onde é muito fácil cair mesmo trabalhando o turismo religioso, parece o cenário mais corrente porque, como Igreja, ainda não fomos capazes de definir a sua matriz. O Homem ocupa a primazia sem querer dizer que Deus desapareceu da história. Ele continua, em si e nas suas obras, mas é como se não existisse. É colocado entre parênteses como algo que já não faz parte das escolhas fundamentais e marcantes do agir e do operar. O Homem torna-se o protagonista. Foi ele que construiu e delineou os monumentos e vai manobrando a natureza reduzindo-a ao que melhor lhe convém. Tudo acontece simplesmente no âmbito do secular ou do profano mesmo no encontro com realidades que poderiam conduzir a outros pensamentos. E assim o turismo acontece numa autonomia muito peculiar e sem relação com outras dimensões da vida e tudo se resume às conquistas sócio-culturais, económicas ou mesmo religiosas mas feitas noutros tempos e épocas.

Com este cenário bem presente, qual será a missão e a identidade do Turismo Religioso para discernir a missão e a identidade da pastoral do Turismo?

Para o Dia Internacional do Turismo, 30 de Junho de 2015, o Secretário Geral da ONU, tendo em vista a Organização Mundial do Turismo (OMT), lançou um slogan que o Pontifício Conselho para os Migrantes e Itinerantes acolheu para o Dia Mundial do Turismo celebrado no dia 27 de Setembro de 2015. “Mil milhões de turistas, mil milhões de oportunidades.” O ano 2012 coincidiu com o momento em que se atingiu a barreira simbólica dos mil milhões de turistas. Mas os especialistas prevêem que, em 2030, a mobilidade humana se situe nos dois mil milhões de turistas. Os números são elucidativos e não podem ser desconsiderados. 

Conscientes desta nova realidade, nunca poderemos esquecer que o turismo é um fenómeno ambíguo e sujeito de muitos problemas. Ele é positivo e vantajoso quando verdadeiramente orientado mas pode ser muito negativo se acontece na lógica do consumismo, num abrir de portas a experiências nada dignificantes e de consequências nefastas e dolorosas para as pessoas e para a sociedade.

Para o incluirmos no âmbito das oportunidades, como fenómeno novo, impõe-se uma verdadeira educação para o turismo, de modo a que se torne valor acrescentado para a pessoa, no encontro consigo, na experiência do descanso, na realidade da comunhão com o próximo e com Deus. 

Isso já dizia S. João Paulo II, em 7 de Setembro de 1986, no Discurso em Courmayeur: “É necessária, antes de mais, uma concepção do turismo à luz dos valores cristãos. É preciso, por isso, uma verdadeira e própria educação para o acolhimento, a gentileza, a recíproca compreensão, a bondade, o respeito pelo próximo, é necessário também uma educação ecológica para o são e sóbrio aproveitamento das belezas naturais; mas sobretudo é necessário “uma educação religiosa para que o turismo não perturbe as consciências e nunca diminua o espírito, antes pelo contrário o eleve, o purifique, o levante para o diálogo com o absoluto e a contemplação do mistério imenso que nos envolve e nos atrai.”.

Repito, o turismo é uma realidade ambígua e complexa porque, a par de imensas potencialidades, encerra um sem número de riscos e desafios. E isto faz com que uma realidade extremamente positiva se transforme numa realidade enganadora e falaciosa.

3. A missão e a identidade da Pastoral do Turismo

Não conheço a realidade do Brasil. Para Portugal, o Papa Francisco, nas suas orientações programáticas da Evangelii Gaudium, colocou a pastoral em questão. Perante um mundo novo, já não é possível permanecer numa pastoral de manutenção. Urge acreditar numa conversão pastoral que coloque a Igreja fora das suas muralhas e toque, com uma presença activa e responsável, segmentos da modernidade onde o turismo emerge como desafio a não ser desconsiderado mas privilegiado. Caminhamos com a Humanidade e, se esta aposta na mobilidade, não podemos ignorar esta nova realidade.

3.1. Pastoral autêntica

Responderemos com a Pastoral do Turismo, um pouco diferente daquilo a que chamam Turismo Religioso. São duas realidades diferentes mas, ao mesmo tempo, similares e que, por isso, se interligam e explicam mutuamente.

Quer no Turismo em geral quer no Turismo Religioso, a Igreja deve ter voz. E o que dizer?. Não nos podemos esquecer que possui uma tradição de valores que podem enriquecer o Homem do turismo, das férias e das viagens e, também, das peregrinações. Por aqui passa a Evangelização. Aliás, muitas vezes, há uma simbiose entre o Turismo Religioso e a obrigação de o imbuir num ambiente de pastoral do Turismo. Trata-se de um imperativo e entra no que muitas Conferências Episcopais, como a Italiana, começam a intitular de Turismo Cultural, fazendo com que a fé se inculture na sociedade hodierna através de uma Pastoral, com todas as dimensões que esta implica, mas do Turismo pelo específico e único deste fenómeno. 

3.2. Valores a ter presente

Como Pastoral, sublinha a centralidade da pessoa humana que necessita de descanso, de conhecer novos mundos, de entrar em comunhão com outros povos e culturas, e, o que não menos importante, para um momento capaz de ligar a Deus, promovendo, deste modo, uma intimidade com as maravilhas humanas, como reflexo da beleza do mesmo Deus. Talvez não seja inadequado referir-se à conversão ecológica, na sua dimensão integral e na lógica da Laudato Si, capaz de desfrutar a natureza, preservar e respeitar o ambiente, e encarar o património como gramática eloquente de uma mensagem que o Homem moderno pode compreender. O turismo pode, sem dúvida, fazer crescer um humanismo cristão e arrastar “até ao diálogo com o Absoluto e a contemplação do mistério imenso que nos rodeia e atrai”, assim como compreender uma herança patrimonial de valor material no que pode ser contemplado e imaterial no que pode ser vivenciado.

3.3. A Pastoral do Turismo torna a fé incisiva

É neste âmbito que surge a Identidade e a Missão da Pastoral do Turismo. Como pastoral, deve ser sector privilegiado da Igreja que não se refugia em circuitos repetitivos mas que se incultura no quotidiano, colocando aí a Palavra reveladora do Deus Amor. Não pode deixar de ser turismo com todas as exigências de um profissionalismo de qualidade elevada. Mas não é suficiente. Deve ir mais além e, mesmo que não o afirme, tem de situá-lo na missão da Igreja, aqui e agora, com uma resposta marcada por sinais identificativos a que nunca se pode fugir. Com a Pastoral do Turismo fazemos com que o fenómeno do Turismo Religioso, que hoje está a ser aproveitado para muitas finalidades, se integre na missão da Igreja, especificando-a com um dinamismo particular. Só quando compreendermos a identidade própria conseguiremos elaborar uma missão característica. Não são realidades antagónicas ou meramente complementares. Integram-se em estratégia unitária.

Tudo isto se compreende, ainda melhor, quando tomarmos consciência da verdadeira revolução trazida pelo Concílio Vaticano II em muitos aspectos e, particularmente, na Dei Verbum, que pretende ultrapassar uma compreensão da revelação incompleta e desvirtuada que nos conduziu a um cristianismo de cariz racional em muitos casos e noutros de interpretação espiritualista porque longe e estranho à história real e ao concreto da vida das pessoas. A Dei Verbum considera, de modo inequívoco, a revelação como um “anúncio da salvação” (DV 1), um verdadeiro encontro do amor de Deus com o Homem peregrino, tendo como finalidade a transmissão da Verdade e a comunicação oferecida da vida e da salvação. “Trata-se de inculturar a fé numa palavra paradigmática que ainda não foi suficientemente compreendida.” Nada do que é humano é estranho à Igreja e o Turismo deve ser um lugar teológico a falar da beleza de Deus na natureza ou nos Bens Culturais da Igreja que ela foi construindo.

3.4. A alegria do Evangelho em tudo

À luz de quanto acabei de referir não é muito difícil delinear a missão e a identidade da Pastoral Turismo. Como missão, integra-se na vida da comunidade eclesial em atitude de anúncio de Deus. É um aspeto que o Papa apelidou de “uma nova etapa evangelizadora” (Evangelli Gaudium – A alegria do Evangelho), que, necessariamente, deve levar à conversão a Jesus Cristo efetuada pela alegria do Evangelho. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (EG. 1).

Se a missão e a identidade reside na responsabilidade de comunicar a alegria do Evangelho, alguns pormenores podem especificar e responsabilizar essa missão no concreto. Não sou exaustivo. São alíneas de um vasto programa a individualizar nos diferentes terrenos onde a evangelização acontece.

4. Procura e oferta

A economia de mercado oferece-nos duas palavras-chave na elaboração de uma Pastoral do Turismo: procura e oferta. Na Europa, a nossa pastoral consiste quase exclusivamente em modelos feitos com mensagens repetitivas. O resultado é que ficamos no abstrato, alheio às verdadeiras inquietações e necessidades do povo. Estas duas palavras podem sintetizar um modelo novo de pastoral. Se a procura cresce, deve crescer a oferta que a comunidade efectua segundo as expectativas.

4.1. Só a qualidade se impõe

Sabemos que existe muita procura. Podemos interpretar como um simples dado sociológico ou como um sinal dos tempos de uma época. O modelo do turismo vigente tem subjacente as características de “mercado” (assistência, segurança, prevenção, acompanhamento, relações públicas, contratos com todos os sectores, viagens, hotelaria). Não nos pode meter medo uma aliança entre a dimensão religiosa (sagrada), como a peregrinação, e o turismo religioso com algo de muito específico e o profano (organização profissional, competente e competitiva). Já estou a apontar um critério importante. Não basta um simples amadorismo mas importa a capacidade de inovar, de especializar sem complexo, de promover e oferecer uma verdadeira elevação cultural e religiosa dentro de todos os parâmetros daquilo que é um viajar ligado à modernização da sociedade. A procura exige esta oferta.

Diz D. Mario Mazza que, para isso, deve ser enquadrado num esquema bipolar procurando sempre a unidade. Deve ser turismo de vanguarda e competência na apresentação e religioso na sua abrangência completa e nunca mera apresentação arquitetónica característica de uma época. 

4.2. A oferta típica

Se todas as exigências emergentes desta contextualização da modernidade não podem ser despiciendas, à Igreja compete – e pode fazê-lo por si, pelos seus serviços ou por agências ou entidades a quem proporciona formação – mostrar que é compatível e possível uma harmonização da “oferta religiosa” com uma exigente qualidade organizativa de um turismo religioso. É turismo e, como tal, e a partir desta característica, colocamos-lhe outra dimensão (a vertente do encontro com Deus), muitas vezes não procurada intencionalmente mas que acontece ou pode acontecer no imprevisto duma viagem. Fazemo-lo no respeito e sentido de acolhimento mas sem vergonha ou complexos do oferecer o que é nosso.

4.3. O Turista torna-se peregrino

Com um programa bem organizado poderá acontecer a metamorfose e passagem de um turista para peregrino. A pastoral, para os crentes que viajam assim como para os não crentes, parte dum profissionalismo, já o referi, assumido para acrescentar algo que não vai desvirtuar este mas dar-lhe significado. Não é suficiente a apresentação de alguns dados religiosos. Deve existir um cuidado muito especial na apresentação das características histórico-paisagística, o conhecimento da realidade cultural, o presente político-cultural do local visitado, tradições e costumes locais, as formas de religiosidade e o contexto religioso. A partir desta apresentação, não deixarão de acontecer oportunidades para um anúncio que, respeitando a liberdade de todos, não pode deixar de ser claro e inequívoco. Deus pode passar por coisas muito pequenas. Importa educar os guias e as comunidades para estas surpresas de algo que pode e deve acontecer.

4.4. Não é a quantidade de mensagens que interessa

Outro pormenor a considerar nesta lógica da procura/resposta: Não importa ter muitas coisas. Há sempre a tentação de querer ver e dizer tudo caindo naquilo que muitos apelidam de “delírio turístico”. Há metas e lugares a selecionar de harmonia com os objectivos a alcançar, o que exige um verdadeiro programa, pré-escolhido, talvez de índole diocesano. Os lugares sagrados apresentam uma origem muito própria, guardam um carisma fundativo, cultivam uma espiritualidade e cultura e expressam-se em formas tradicionais de piedade popular. Importa centralizar a “mensagem” e prepará-la bem para ser acolhida tornando o conhecimento de lugares um momento de contemplação e interioridade. Em tudo se pode descortinar o génio do cristianismo e encontrar a fé com a sua capacidade criativa expressa em sinais históricos de épocas concretas através da vivência de artistas, trabalhadores, artesãos. Estes lugares não são entidades abstratas e fora de contexto. 

4.5. Intuir o essencial através da arte

Nesta intenção de oferecer a mensagem essencial do lugar a visitar, não podemos esquecer três grandes aspectos que o património cultural nos sugere. Sabemos que determinados lugares evangelizam por aquilo que são. Um santuários dedicado a Nossa Senhora é diferente de outro a evocar um Santo. Estes falam da vida concreta que deve ser comunicada. Aqueles de uma mensagem ligada a Nossa Senhora. Só que, para além deste objectivo específico, temos o património, do qual não podemos desconsiderar o seu significado. Quero, por isso, recordar três elementos que devem ser descortinados na Arte e que devem ser tidos em consideração.

  • A arte sacra tem um valor histórico-narrativo, ou seja, documenta acontecimentos, episódios ou perpetua personagens, sejam bíblicas, eclesiásticas ou indiferentes
  • Arte tem uma força catequética pelo seu valor parenético (exortativo). Ela chama a atenção para a prática das virtudes, convida à imitação dos santos, mostra a valentia dos antepassados, a santidade dos contemplativos, apela à conversão.
  • Terceira coordenada transmissora da fé é o fortíssimo valor simbólico. Aponta para outro sentido, com algo intuitivo ou a descobrir, coisas que se dizem não dizendo, para algo que é evidente mas que explicitamente não aparece

Chamar a atenção para estas perspectivas, sabendo-as apresentar com argúcia e entusiasmo, torna a oferta apetecível, sobretudo se o discurso é fascinante e sapiente e sabendo que as peças artísticas encerram um densíssimo significado humano e transcendente.

5. Os sujeitos promotores e organizadores

A oferta exige sujeitos que a interpretem. Há coisas preciosas que não são apreciadas por causa de deficiente apresentação. Começam a existir pessoas e instituições com diferente perfil jurídico e com finalidades diversificadas. A novidade do fenómeno exige concretizações específicas ligadas às Conferências Episcopais, Regiões, Dioceses. As paróquias entram no dinamismo da diocese. Não esqueçamos que hoje começam a existir outros entes ou associações nacionais e territoriais de turismo religioso, cooperativas, agências de viagens ou peregrinações, casas para férias, hotéis com este cuidado específico. Estes últimos muitas vezes com intuitos meramente lucrativos e sem o mínimo de preocupação pastoral.

5.1. Agentes em trabalho unitário

Estes diferentes organismos, instituições e pessoas exigem, por parte da Igreja, uma atenção especial, um cuidado renovado na linha da preparação profunda. Sem intervenientes conscienciosos, nunca teremos uma pastoral de encontro com as expectativas, ocultas ou evidentes, dos turistas.

Neste mundo de intervenientes, é imperioso agir em rede para potencializar programas e interesses comuns de índole religiosa, cultural ou turística onde o aproveitamento económico não pode ser despiciendo. Trata-se de saber “racionalizar” com inteligência e respeito, as diversas oportunidades segundo princípios e critérios de identidade, de integridade, de eficiência e de estilos apropriados. Uma interligação entre as instituições eclesiais das dioceses e os organizadores significa e manifesta o compromisso que a Igreja nunca poderá considerar de menor importância. 

Não podemos esquecer que a assistência e animação espiritual são da competência dos cristãos (sacerdotes ou leigos) mas a promoção e organização técnica e administrativa deveria ser confiada a leigos com preparação. Os Secretariados Diocesanos para o Turismo são uma estrutura a construir ou a consolidar nas dioceses que, para além daquilo que poderão organizar, deveriam orientar-se para este trabalho de congregar para agir em comum. Importa conhecer as agências e operadores e manter contactos de cordialidade e, se oportuno, dar formação aos profissionais. Tudo na autonomia e colaboração integral. 

Para uma missão eficaz que preserva a identidade, as figuras profissionais – guias, acompanhantes, animadores, promotores, intermediários – devem ser formadas na fé cristã. E a Igreja tem a responsabilidade de a proporcionar para as suas viagens mas, e sobretudo, para aquelas organizadas por agentes que oferecem este produto por saberem que se torna, sempre e cada vez mais, atractivo e lucrativo.

5.2. O acolhimento, gesto das estruturas e das comunidades

O turismo mostra-nos uma variedade imensa de pessoas que se colocam à procura de emoções mas também de verdade. Estão psicologicamente abertas a acolher experiências determinantes e sensíveis e a apreender interpelações mais absolutas. Mergulhados no contexto de culturas débeis, colocam-se, ou podem colocar-se, em questão e ficar disponíveis para aderir a valores quando o quotidiano apenas lhe oferece um relativismo estéril e uma vida sem referências éticas. Se há intérpretes da Pastoral do Turismo directamente implicados, a comunidade é o primeiro sujeito a preparar. É ela que acolhe e o hospitalidade pode tornar-se anúncio. Normalmente os turistas têm grandes expectativas, tempo livre, são culturalmente bem preparados, economicamente bem capacitados e, consciente ou inconscientemente, desejosos de se abrir a outros horizontes e de mergulhar em atitudes de permuta e procura de outros dons e experiências.

Não é muito comum ver a comunidade (paroquial ou não) implicada nesta responsabilidade. Aceno a dois aspetos fundamentais. Ela deve preparar os seus membros para os momentos de turismo e deve, nos lugares onde isso acontece, ter um papel determinante que passa pelas celebrações com atenção aos turistas e pelo acolhimento personalizado e atento. Os pequenos gestos podem marcar vidas.

6. Conclusão

A conclusão é que, para a Igreja, os destinatários “turistas” e os destinatários “turistas religiosos” podem gerar tipologias muito coincidentes. Uns parecem ter o interesse centrado no prazer da vida e outros no sentido da vida. Turista e peregrino são distantes mas podem encontrar-se quando o turismo religioso lhes oferece uma resposta onde a religião pode e deve entrar. Por aqui passa a missão do Turismo Religioso.

7. Um epílogo com o Papa Francisco

Sem muito tempo para desenvolver o pensamento do Papa Francisco, gostaria de terminar chamando a atenção para seis perspectivas retiradas da Evangelii Gaudium e Laudato Si que podem emergir como pistas para que a Igreja não perca as oportunidades que o Turismo Religioso lhe oferece. Cada um dos enunciados mereceria uma conferência. Com eles, poderemos reconhecer que a missão do Turismo Religioso tem obrigatoriamente de situar-se nesta nova era da Evangelização, com uma identidade característica a exigir muito trabalho e opções pastorais.

Ouso referir que a Arquidiocese de Braga, para além de várias estruturas hoteleiras, constituiu uma operadora turística, Peregrinos da Europa, para, com todas as exigências de um turismo moderno, aproximar os turistas do Sagrado na visita a diversos santuários, típicos de uma religiosidade popular muito forte. Todos eles situados em locais privilegiados da natureza, com um forte valor patrimonial que enriquece a natureza. Confiados nos serviços, desde a organização total da viagem ao acompanhamento por guias credenciados, a “Peregrinos da Europa” pode constituir uma verdadeira experiência e vivência cristã a partir do conhecimento de muitos anos de história do cristianismo.

 

7.1. Um olhar contemplativo

“Precisamos de identificar a cidade a partir dum olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças. A presença de Deus acompanha a busca sincera que indivíduos e grupos efetuam para encontrar apoio e sentido para a sua vida. Ele vive entre os citadinos promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça. Esta presença não precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada. Deus não Se esconde de quantos O buscam com coração sincero, ainda que o façam tateando, de maneira imprecisa e incerta.” (EG 71)

7.2. O descanso com significado

“Assim, a espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. O ser humano tende a reduzir o descanso contemplativo ao âmbito do estéril e do inútil, esquecendo que deste modo se tira à obra realizada o mais importante: o seu significado. Na nossa atividade, somos chamados a incluir uma dimensão receptiva e gratuita, o que é diferente da simples inatividade. Trata-se doutra maneira de agir, que pertence à nossa essência.” (Laudato Si, 237)

7.3. Percorrendo a Via da Beleza

“Recuperar a estima da beleza para poder chegar ao coração do homem e fazer resplandecer nele a verdade e a bondade do Ressuscitado. (…) É desejável que cada Igreja particular incentive o uso das artes na sua obra evangelizadora, em continuidade com a riqueza do passado, mas também na vastidão das suas múltiplas expressões atuais, a fim de transmitir a fé numa nova «linguagem parabólica». É preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne para a transmissão da Palavra, as diversas formas de beleza que se manifestam em diferentes âmbitos culturais, incluindo aquelas modalidades não convencionais de beleza que podem ser pouco significativas para os evangelizadores, mas tornaram-se particularmente atraentes para os outros.” (EG 167)

7.4. No encontro com o Património Natural

“Deus escreveu um livro estupendo, “cujas letras são representadas pela multidão de criaturas presentes no universo.” “Esta contemplação da criação permite-nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos queira transmitir através de cada coisa, por que, “para o crente, contemplar a criação significa também escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e silenciosa.” Podemos afirmar que “ao lado da revelação propriamente dita contida nas Escrituras, há uma manifestação divina no despontar do sol e no cair da noite.” (Laudato Si, 85)

7.5. A Cultura que manifesta a fé

“A par do património natural, encontra-se igualmente ameaçado um património histórico, artístico e cultural. (...)É preciso integrar a história, a cultura e a arquitetura de um lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envolve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. (…) É a cultura – entendida não só como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente.” (Laudato Si, 143).

 

Como podemos ver, o turismo em geral e o turismo religioso são duas realidades que, em diversos pontos, se misturam, cruz e até confundem.Nem sempre é fácil separar. Mas uma coisa é certa: precisamos de educar as nossas comunidades para um turismo como procura da mão de Deus no que se visita e de promover uma pastoral de saída quando oferecemos as condições necessárias para que a visita aos nossos lugares continue a ser Mensagem.

Importa ser capaz de viver ou oferecer um olhar contemplativo, nos momentos de descanso, percorrendo a vida da beleza encontrada no património natural e nas diversas expressões do património cultural, material ou imaterial.


+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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