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Escola de Música Litúrgica São Frutuoso | 26 Nov 2018
Nota Pastoral da Comissão Episcopal de Liturgia sobre o Canto litúrgico
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O CANTO LITÚRGICO

Nota Pastoral da Comissão Episcopal de Liturgia sobre o Canto litúrgico.

Lisboa, 22 de Novembro de 1985[1].

O presente ano de 1985 foi considerado, por iniciativa do Conselho da Europa, o «Ano Europeu da Música».

Quis a Igreja associar-se a esta celebração e hoje mesmo se conclui em Roma o VIII Congresso Internacional de Música Sacra, congresso em que tomaram parte representantes da Igreja em Portugal.

Aproveitando o ensejo que lhe oferecem estas manifestações, com as quais se congratula, a Comissão Episcopal de Liturgia decidiu assinalar este dia de Santa Cecília, tradicional padroeira da música, tornando públicas algumas reflexões que muito desejaríamos fossem lidas por todos os responsáveis do serviço litúrgico das nossas comunidades cristãs.

A Igreja e a música

A Igreja Católica sempre foi grande promotora e cultivadora da música. O louvor de Deus na liturgia sagrada fica enriquecido com esta expressão de beleza, que os cristãos sempre usaram na sua oração comunitária, desde os primórdios da fé.

A história atesta que também em Portugal a Igreja foi protectora desta maravilhosa arte; e, muito embora surjam agora numerosos reparos à qualidade do que se faz, é ainda a Igreja quem hoje, nas celebrações do culto dominical que semanalmente congrega, proporciona a ocasião de se formarem, para rezar, milhares de assembleias de canto; quem organiza centenas de grupos que, por amor da fé e gosto da música, se colocam ao serviço da comunidade através do canto; quem adquire, conserva e utiliza maravilhosos órgãos que muito enriquecem o nosso património; quem, de outros modos vários, estimula o cultivo da música, desde as suas escolas citadinas (recordem-se os seminários) até às mais reconditas aldeias.

Os exemplos referidos situam-se predominantemente no âmbito da actividade litúrgica da Igreja. A este propósito julgamos conveniente recordar a clara distinção que importa estabelecer entre o «canto litúrgico» e a restante «música religiosa». Se por esta entendermos toda a música que se inspira em temas religiosos, por aquele devemos compreender apenas a expressão musical que, integrada no verdadeiro espírito do culto, contribui para a maior elevação da oração comunitária da Igreja.

Reconhecendo embora o alto valor de tantos grupos corais que, nascidos à sombra dos templos, cultivam a música religiosa, é do canto litúrgico, e só dele, que falaremos nas linhas restantes desta Nota Pastoral.

Incrementar o canto litúrgico verdadeiro

É ao serviço da liturgia que na Igreja ultimamente se verificam os cuidados mais atentos e a dedicação mais persistente dos amantes da música; este facto é motivo de júbilo. Quererá ele dizer que os pastores e outros responsáveis compreendem cada vez melhor o lugar da música na vida da Igreja: ela está ao serviço de outros valores maiores.

Assim, tomados por esta certeza e imbuídos do espírito de humildade necessário a quem deseja ser prestável, os animadores do canto litúrgico sacrificam o brio natural de quem gostaria de evidenciar qualidades, para se apagarem no discreto serviço de ajudar a assembleia que reza.

Estamos gratos aos que assim procedem e queremos dizer-lhes que se encontram no mais acertado caminho da tradição cristã.

Agradecemos aos nossos compositores, que zelosamente têm musicado os textos litúrgicos, conscientes de que, neste caso, «a música é o vestido da palavra». Lembramos os já numerosos leigos que, tal como tantos religiosos e religiosas, animam e conduzem, com muita competência, o canto da assembleia. A estes juntamos os salmistas, e muitos vão sendo os que, de entre eles, perceberam que o canto do salmo após as leituras não é solo artístico mas oração meditada da comunidade orante. Estamos reconhecidos, enfim, a todos os que, tocando os instrumentos apropriados ou organizando grupos de cantores, se apercebem de quanto valor terá para a glória de Deus e para a vida da Igreja este serviço abnegadamente oferecido ao povo santo que reza em comunidade.

Propositadamente deixamos para o fim os párocos e demais sacerdotes; louvando aqueles que com paciência e perseverança têm educado o gosto musical dos seus colaboradores no serviço litúrgico, pedimos a todos que não se deixem vencer pela tentação de cantar o que é fácil, desculpando-se com o pretexto de cantar aquilo de que o povo gosta. Toda a educação há-de ser exigente e capaz de suportar o desagrado inicial de quem ainda não descobriu valores profundos; a experiência demonstra que o nosso povo cristão muito depressa aceita e agradece os critérios musicais de quem lhe ensina que, na Igreja, cantar é rezar a palavra.

Seja permitido incluir neste passo uma referência ao Secretariado Nacional de Liturgia e a quantos com ele colaboram directamente. Entre as obras notáveis que lhe devemos, no apoio ao canto litúrgico, avulta a publicação das melodias necessárias para o Tríduo Pascal (praza a Deus que todos as utilizem) bem como o trabalho progressivo que se vem desenvolvendo para musicar os diversos textos da Liturgia das Horas; que o povo de Deus aprecia os frutos desta segunda tarefa, podemos concluí­lo do louvável costume, que se vai generalizando, de cantar, também nas paróquias e em reuniões de apostolado, as «horas» principais, particularmente a de Vésperas. Referindo-nos ainda ao Secretariado Nacional, queremos dizer por fim que os encontros nacionais de Fátima, desdobrados em outros de âmbito diocesano, tal como a iniciada publicação de fichas musicais devidamente seleccionadas, constituem um apreciável serviço à música litúrgica em Portugal.

Se é justo mencionar, como fizemos, o apreciável trabalho de tantos servidores em prol do canto litúrgico, ninguém estranhará que aos mesmos lembremos, uma vez mais, as orientações da Igreja para o desempenho da sua missão. Com a Instrução

«Musicam Sacram», publicada pela Santa Sé em Março de 1967, Instrução que todos devem conhecer bem e cumprir, recordamos algumas das características fundamentais que há-de possuir todo o canto que se pretenda litúrgico:

a)      Ele será, primeiramente, música para rezar, isto é, será «expressão delicada da oração», conforme diz a Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia (SC 112).

b)     Será ainda música servidora do texto, procurando acima de tudo valorizar a palavra sagrada que se reza.

c)      Destinando-se a ser cantado pela assembleia, cumpre-lhe ser «factor de comunhão», como bem recorda o mesmo passo do Concílio.

d)     Por último, deverá ser canto de boa qualidade formal, pois assim o exige a dignidade do culto divino e assim o pede o seu carácter sagrado, ou seja, o seu propósito de abrir as pessoas para o invisível.

Atropelos a corrigir

Na perspectiva pastoral que damos a esta Nota, cabem agora algumas correcções a determinadas práticas generalizadas que, nascidas porventura de certa boa vontade, alteram a regra da celebração e desprezam as normas estabelecidas.

Se esta Nota Pastoral não fosse intencionalmente reduzida, deixando outras reflexões para nova oportunidade, muitos seriam os reparos que lhe competia fazer. Limitamo-nos, porém, a três pontos de importância maior, todos eles relacionados com a celebração da Missa.

1. A «acção eucarística» propriamente dita, que torna presente a Ceia do Senhor, é a oração mais sagrada da Igreja. É por isso que nela, mormente nos ritos que vão desde o Prefácio até à Comunhão, o próprio celebrante é obrigado a ater-se à norma escrita e tradicional da Igreja, norma sagrada e secular que, por isso mesmo, ganhou o nome de «cânon» (regra). Sendo assim, não se compreende o atrevimento de certas composições que alteram o texto aprovado deste «cânon», introduzindo por vezes paráfrases sem valor, de sentido totalmente desviado. Tal acontece, por exemplo, no canto do «Santo», do «Pai Nosso» e do «Cordeiro de Deus», podendo juntar-se o do «Glória». A exclusão destas liberdades, verdadeiros abusos, resulta bem clara dos números 34 a 36 da citada Instrução «Musicam Sacram» e particularmente do seu número 54.

Queira Deus que, em lugar de tais abusos, cresça o costume de utilizar as melodias oficiais, quando for oportuno, nas partes do «cânon» que podem ser cantadas.

2. A mesma Instrução, ainda nos números 34 e seguintes, refere os cânticos que têm lugar no «ordinário da Missa»; e cita-os expressamente, de modo a ficar bem claro que não há lugar para a intromissão de outros.

Lamentando que, da Missa, não se cante o que afinal mais convinha cantar, chamamos a atenção necessária dos responsáveis para os desvios que neste caso se estão a introduzir; seja-nos permitido, a título de exemplo, apontar um abuso bastante repetido.

Fruto de um compreensível gosto de sublinhar o abraço da paz, gosto mais sentimental que litúrgico, generalizou-se entre nós o que alguns já chamam o canto da paz. Este desvio, que deve corrigir-se, é gémeo de um outro erro, que consiste precisamente em transformar num cumprimento familiar e universal o gesto sóbrio e denso de saudar o irmão que calhou de estar ao nosso lado, irmão que representa todos os outros.

Urge corrigir tais desacertos e, relativamente ao canto, lembre-se que o missal não refere aqui senão o canto da fracção do pão, aquele que acompanha o preparar da comunhão e é justamente o canto do «Cordeiro de Deus».

3. Por último, uma referência aos cânticos chamados do «Próprio» do tempo ou da festa.

A sua função específica de contemplação do mistério celebrado naquele dia justifica o particular relevo que se há-de dar ao «salmo responsorial», escolhido oficialmente em função da leitura que ele prolonga. Relativamente aos outros cânticos, que se destinam a acompanhar uma procissão (entrada, ofertório, comunhão), lembram-se os critérios que hão-de presidir à escolha de cada um: «não basta que este cântico seja "eucarístico"; é necessário que esteja de acordo com as partes da missa e com a festa ou tempo litúrgico» (MS 36).

Conclusão

Terminamos esta Nota citando o que, a propósito de uma válida pastoral da fé em ordem à ambicionada «renovação da Igreja em Portugal», recorda a carta do Episcopado Português de Outubro de 1984: «A Liturgia, se bem celebrada e participada, assegura a melhor e mais universal das catequeses».

Não será uma pastoral fácil, de liturgia feita à mercê de gostos, que conseguirá realizar esta verdade. Só um persistente trabalho educativo, que ajude todos os fiéis, e particularmente os responsáveis do canto, a sentir o que é uma liturgia «bem celebrada e participada», poderá levar aos objectivos que tanto desejamos.

Que Deus ajude os que trabalham por alcançá-los.

 

 

[1] Boletim de Pastoral Litúrgica, n.º 41 (1986), pp. 17-22.

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