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9 Jan 2017
Uma obra de Príncipe
1686 - 1698
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A Igreja de São Victor ocupa um lugar de destaque na cidade de Braga, não só pela sua localização geográfica privilegiada, mas também por se tratar de um monumento único que introduziu as tendências barrocas na sede da arquidiocese. O reconhecimento da sua importância valeu-lhe em 1977 a classificação como Imóvel de Interesse Público. 
Marco da transição entre o nacionalismo do estilo chão, clássico e austero, que transparece na estrutura sóbria e no cuidado geométrico da fachada, e a resposta a um novo programa ideológico, que procura uma obra de arte total (Smith, 1972), capaz de emocionar e despertar os sentidos dos espectadores, programa que se materializou no total revestimento em azulejo e talha dourada, a Igreja de S. Victor torna-se pioneira no seu género. 
Mas talvez tão importante como o processo ideológico que presidiu ao desenho do edifício seiscentista que hoje marca tão vincadamente a malha urbana da cidade de Braga, fiel aos seus princípios, apesar de sucessivas intervenções ao longo dos últimos quatro séculos, é o conhecimento do seu passado que nos permite desenhar um friso cronológico desde meados do século VI d.C., conseguindo, através deste objecto arquitectónico único, uma leitura transversal à História da Arquitectura Portuguesa. 
Em 1686 é lançada a primeira pedra na construção da Igreja de São Victor pelo arcebispo D. Luís de Sousa. Ao contrário do que era então frequente na construção e reparação dos templos, em que os paroquianos assumiam a responsabilidade pelo corpo da Igreja cabendo à Mitra assegurar a construção da capela-mor, São Victor foi inteiramente financiada pelo arcebispo D. Luís de Sousa, apesar da sua morte em 1690, ainda antes da conclusão da obra. Este facto foi essencial para garantir não só a unidade do conjunto, como também a rapidez da execução e uma certa erudição arquitectónica, ao possibilitar a escolha dos melhores mestres e arquitectos. 

Nessa época, a Igreja de S. Victor veio reforçar um dos principais eixos urbanos, assumindo-se não só como um importante marco no território, mas também como o cenário de uma nova época, uma nova cidade. A esta implantação não é alheia a obra prévia do arcebispo D. Diogo de Sousa: as suas intervenções urbanas ao longo do século XVI são determinantes no desenvolvimento da cidade nos séculos posteriores e abriram o caminho que permitiu a centralidade da Igreja de São Victor no traçado urbano. 
Desses projectos urbanísticos, um dos mais influentes no desenvolvimento histórico da Igreja de S. Victor foi o campo de Sant’ Ana, actual Avenida Central. Este lugar era o ponto de chegada à cidade para quem vinha pela estrada de Chaves; encontrava-se a eixo com a antiga via romana XVII, era limitado a poente pelo castelo e a muralha da cidade com a Porta do Souto e a nascente pela Igreja de Santa Maria a Branca, reconstruída na altura por ordem do arcebispo, templo antecedente do actualmente existente no mesmo lugar. Ao centro, a Capela de Sant’ Ana, que dá o nome ao campo, desenha um alinhamento cerimonial composto pela própria Sé, no interior da muralha, a Capela de Sant’ Ana, a Igreja de Santa Maria a Branca e que culmina na Igreja de S. Victor, estipulando em definitivo o eixo paradigmático da sua implantação. 
Mas apesar da relevância destas remodelações urbanas e da afirmação que o eixo do Campo de Sant’Ana terá mais tarde na reconstrução e orientação da Igreja de São Victor como hoje a conhecemos, importa não esquecer que que o lugar estaria já ocupado desde meados do século VI d.C. A existência na construção actual de pedras sepulcrais de origem romana, algumas delas ainda visíveis nos paramentos exteriores, sugere a existência no local de uma antiga necrópole romana. Esta necrópole coincidiria com o traçado da antiga via XVII, pois era geralmente no exterior da urbe, junto das vias de saída da cidade, de modo linear, que eram criadas as zonas de enterramento das cidades: os mortos eram afastados da cidade por uma questão de salubridade pública, mas garantindo que eram recordados pelos vivos. O surgimento no local de uma basílica cemiterial, por volta do século VI d.C. enquadra-se com o costume de culto dos mártires, tal como aconteceu na Sé Catedral de Braga e na Igreja de São Lázaro, podendo efectivamente a localização da Igreja dever-se ao lugar de enterramento do catecúmeno S. Victor, tal como dita a lenda. 
Compreende-se assim a sacralização do lugar desde os primórdios do Cristianismo e a intenção de reedificar o templo sucessivamente, apesar da total devastação causada pela invasão árabe, por volta de 711 d.C.. A Igreja de S. Victor foi reedificada em meados do ano 1000 e novamente no início do século XII. Por essa altura e até meados do século XV poderá ter estado associada às Gafarias da Rua da Corredoura e das casas de Santa Margarida. Na passagem ao século XV, com a progressiva extinção da lepra, muitas gafarias caíram em desuso e encontraram-se em ruínas, algo que pode ter uma vez mais acontecido com a Igreja de S.Victor, já que em 1486, D. Jorge da Costa mandou fazer uma nova Igreja, colocando nela o brazão das suas armas (Morais, 1986). Esta foi a última Igreja edificada neste lugar antes da intervenção de D. Luís de Sousa e a ela se refere a cartela lateral direita, na actual fachada, este templo erguido quase pelos fundamentos das ruínas do velho. 
Quando D. Luís de Sousa decide reconstruir em Braga a Igreja de S. Victor, sentiam-se ainda em Portugal os efeitos das guerras da Restauração que duraram até 1668. Em plena sincronia com o momento político, a arquitectura caracteriza-se pela procura de um estilo próprio, de afirmação nacional. Retomam-se assim as tendências prévias à anexação espanhola, de um estilo chão caracterizador de uma arquitectura vernácula, mais relacionada com as tradições de um dialecto vivo do que com os grandes autores da Antiguidade Clássica (Kubler, 1988). A expansão do Império Português em várias frentes, contribui para o seu carácter civil e militarizante, de expressão simples, sóbria e austera, lisa e despojada. Esta simplicidade, inicialmente mal compreendida e vista como um sinal de pobreza, não pode ser lida como uma fragilidade se compreendidas as suas motivações ideológicas. Desenhando edifícios repetitivos, modulares, simples e fáceis de exportar, o estilo nacional podia afirmar-se por todo o Império, introduzindo princípios de produção em série, muito à frente do seu tempo.
Michel de Lescolle, arquitecto de S. Victor, era um destes projectistas militares, natural de Paris e chegado a Portugal em 1642, em pleno surto de expansão das construções militares fronteiriças. O seu trabalho desenvolve-se muito mais no âmbito da engenharia militar: Se a técnica e engenho utilizados nas construções militares são pouco relevantes no que diz respeito à Igreja de S. Victor, único exemplar documentado de uma Igreja da sua autoria, é nos portais dos seus fortes que facilmente encontramos traços comuns, nomeadamente na utilização cuidada de preceitos geométricos. Exemplos disso são os portais do Forte de Valença e, sobretudo, do Forte de Vila Nova de Cerveira: a utilização do frontão triangular, sobre friso com tríglifos e ladeado por pilastras planas, mas também a geometria cuidada da sucessão de rectângulos dinâmicos, estabelecendo a métrica até à parte superior da cruz, princípios que virá a utilizar em 1686 na fachada da Igreja de São Victor. Surpreendente no caso do Forte de Valença é a linguagem maneirista utilizada, com o recurso a frontões curvos, interrompidos e com volutas, num traçado muito mais arrojado e bem distante da simplicidade clássica que empregará, mais de 20 anos depois, no alçado de S. Victor, o que revela uma intenção clara.
Esta simplicidade clássica a par de um grande cuidado geométrico revelam-se realmente importantes em toda a composição da igreja de São Victor, materializando a erudição e prestígio que D. Luís de Sousa pretendia para esta obra. A fachada é simétrica e tripartida, com pilastras planas e encimada por frontão triangular, desenho que é repetido no portal em ordem menor. Este desenho poderia ser repetido nos nichos laterais com as imagens dos arcebispos, embora não sejam hoje visíveis por remodelação de 1728, que alterou a proporção, tornando-a mais esbelta ao introduzir os arcos de volta perfeita. Os únicos momentos com decoração mais efusiva são as duas cartelas laterais e o óculo central, envolvidos por rol-werk, e o brasão de armas de D. Luís de Sousa no tímpano. 
Todo o desenho da fachada principal pode ser integrado numa malha quadriculada e cumpre com preciosismo as unidades de medida estipuladas por D. Manuel I em 1495, antes da introdução do sistema métrico em Portugal. Chega a ser surpreendente o rigor das medidas em palmos, pés, varas e braças, revelando grande cuidado em obra. A este cuidado não será alheia uma das maiores inovações estilísticas da Igreja de S. Victor: a primeira igreja desenhada de raiz para ser integralmente revestida por azulejos historiados. Segundo o contrato de assentamento da época, os azulejos terão sido colocados em 1692, durante o decorrer das obras de conclusão da Igreja. Na capela-mor encontramos narrada a lenda do mártir S. Vítor, padroeiro da Igreja, e na nave principal uma assembleia de santos e santas bracarenses, como São Torcato, Santa Liberata ou Santa Marinha, encabeçados, desde o coro alto, pela figura de São Paterno, bispo bracarense que presidiu o Concílio de Toledo em 405 d.C. Esta obra é considerada pelo IGESPAR como o primeiro conjunto de azulejo azul e branco desta envergadura em Portugal. Ainda que não assinados, são atribuídos pelo historiador Robert Smith ao pintor de Lisboa Gabriel del Barco, pela semelhança com a sua obra assinada no Convento dos Lóios, em Arraiolos.
 Quando em 1697 D. João de Sousa sagrou a Igreja, esta estaria já concluída e no seu máximo esplendor, com o revestimento de talha dourada e azulejo então pioneiros na cidade de Braga. O seu desenho longitudinal e austero, caracterizava-se por uma sucessão de volumes regulares, num único eixo longitudinal, orientado segundo os cânones religiosos num eixo nascente-poente, sem que isso implique cedências na sua implantação urbana, voltando a fachada para o centro da cidade e remetendo a torre para a traseira, opção tipicamente bracarense, como marcação territorial dos eixos viários. Só nos séculos seguintes foram acrescentadas as capelas laterais. 
Iniciadas praticamente ao mesmo tempo que a Igreja de S. Victor, as Igrejas de São Vicente e da Ordem Terceira de São Francisco são um bom exemplo da influência que a obra encomendada por D. Luís de Sousa teve na cidade, mas, ao mesmo tempo, salientam a sua autenticidade e carácter único. A construção da Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco é iniciada em 1690 e inteiramente financiada pelos fiéis. Esta é uma das diferenças mais significativas, contrastando com a obra de príncipe encomendada pelo arcebispo D. Luís de Sousa, que se manifestou num tortuoso processo de construção: é concluída apenas em 1733, mais de 40 anos depois, obra de diversos mestres, linguagens e concepções espaciais. A reconstrução da Igreja de S. Vicente é decidida também por volta de 1686, iniciando-se apenas em 1689. Nessa fase são chamados a S. Vicente os mestres de S. Victor: Pascoal Fernandes e Domingos Moreira, para dar o seu parecer sobre a obra, desenhando este último um primeiro plano para a Igreja. Mas, tal como na Ordem Terceira, as obras correm bem mais lentamente que em S. Victor e os 30 anos que separam o início da construção até à conclusão da fachada, influem certamente nas variações de linguagem aí visíveis. 
Nos séculos seguintes, o edifício desenhado por Michel de Lescolle sofreu poucas alterações, se comparado com o fervor edificativo que caracterizou o passado deste templo. Alguns registos indicam que em 1728 existiram profundas remodelações no edifício, sempre mantendo a traça original. Deste período datam as alterações aos nichos da fachada já referidas anteriormente, mas talvez também a primeira capela lateral, a Norte, utilizada como sacristia, rasgada com dois janelões rectangulares e incluindo um lavabo em granito e revestimento interior com a utilização de azulejos restantes da obra anterior. Pouco mais tarde, em 1747, ter-se-á procedido à reparação da torre que se encontrava danificada. Terá sido também neste período, possivelmente, que se procedeu à colocação dos altares votivos nos nichos laterais, por encomenda dos fiéis e, sobretudo das diferentes confrarias, sociedades horizontais de oração e caridade, associadas à Igreja de S. Victor.

Em 1815 é colocado o órgão de tubos, atribuído a Manuel de Sá Couto pelos contratos da época. A sua colocação aproveita o acesso do coro, criando um novo varandim sobre mísulas, encaixado na métrica dos janelões rectangulares simétricos na nave da Igreja, reduzindo a iluminação no interior e ocultando um dos painéis historiados em azulejo. Uma intervenção do mesmo género acontece já no início do século XX, com a colocação, em 1906, da sanefa do arco-cruzeiro, realizada pela oficina Sousa Braga, num estilo neo-barroco extremamente decorado que vem sobrepor-se a todo o revestimento de azulejo da parte superior do arco triunfal que separa a nave da capela-mor.
Em 1977, a Igreja é considerada Imóvel de Interesse Público, apesar do mau estado de conservação em que se encontrava, segundo o processo da DGEMN (Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais), de 1978. Na década de 80 construiu-se a actual capela mortuária, a Sul, com desenho pouco relacionado com a métrica do edifício anterior, reorientou-se procurando agarrar a direcção da Rua de S. Victor, na cota inferior, e já no início do século XXI a Igreja foi remodelada, no que diz respeito ao pavimento e organização de espaço interior através de mobiliário, mas sobretudo às instalações eléctricas, até então muito pouco cuidadas e respeitosas do valor histórico do imóvel, que haviam danificado de modo significativo alguns dos azulejos.
Uma das mais antigas paróquias da cidade, São Victor continua a ser, no século XXI, uma das mais populosas. No século XXI, um novo momento se impõe na sua História, para que se mantenha viva, dinâmica e integrada na cidade, como centro social que sempre foi: surge assim a intenção de complementar a obra com um centro pastoral na sua envolvente imediata, incluindo novos programas de cariz social, como creche, jardim-de-infância, ATL e salão polivalente. 

Autora: Joana Gonçalves

 

BIBLIOGRAFIA:

IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arqueológico. [em linha] www.igespar.pt
KUBLER, G. (2005) – A arquitectura Chã: Entre as Especiarias e os Diamantes (1521-1706). Editora Veja. 
MORAIS, Pe. J. (1986) – III Centenário da Fundação da Igreja de S. Victor. Comissão Fabriqueira Paroquial de São Victor, Braga. 
SMITH, R. (1972) – Três Estudos Bracarenses. Livraria Cruz, Braga.

 

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