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DACS | 9 Out 2015
Sínodo: diferenças, martírios e boa-disposição
No dia 09 de Outubro foram publicados os primeiros relatórios dos diferentes grupos de trabalho.
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Dia 4: Culturas e olhares diferentes

O quarto dia do sínodo ficou marcado pelas declarações de representantes da Europa, África e Médio Oriente. Temas como a perseguição aos cristãos, a visão europeísta do mundo e a homossexualidade estiveram em análise sob olhares culturalmente diferentes.

No dia em que três cristãos foram decapitados por um grupo de jihadistas, na Síria, o patriarca sírio Inácio Younan denunciou o “inferno” que tem sido a perseguição aos cristãos no Médio Oriente. Younan referiu-se à impotência da Igreja perante esta “situação trágica” e lamentou o abandono das famílias, particularmente do Iraque e da Síria, que fazem “todos os possíveis para sair do inferno”. “Sentimos que fomos esquecidos, mesmo traídos pelos países ocidentais”, lamentou.

O patriarca referiu-se às perseguições e sequestros de cristãos como um “fenómeno catastrófico” que os vai afectar “durante muito, muito tempo”. Criticou a “política de oportunismo económico” das potências ocidentais, e deixou um apelo: “Chega deste oportunismo, é preciso fazer de tudo para devolver a paz e a estabilidade”.

Younan não poupou, ainda, uma crítica aos meios de comunicação ocidentais, por enfatizarem os temas ocidentais, preterindo os temas relacionados com a Igreja Universal. O arcebispo ganês Charles Palmer-Buckle corroborou a ideia. “Nada de bom que sai de África é suficientemente bom para os média europeus”. O próprio Instrumentum Laboris, documento que serve de base para as discussões no sínodo, foi alvo da crítica do arcebispo ganês que se referiu a este como descurando a perspectiva africana.

Acerca da família, o cardeal italiano Edoardo Menichelli, reforçou a necessidade de conhecer a “a vida das pessoas em família, como elas se relacionam e aquilo que a Igreja pode oferecer”. Palmer Buckle falou sobre a diferença do conceito de família em África, mais alargado, comparativamente à visão ocidental, que se cinge à família nuclear. Neste sentido, especificou o equilíbrio que pretendem alcançar: “Queremos manter as alegrias do sistema de família alargada. Queremos adoptar as melhores práticas do sistema de família nuclear, sem destruir as nossas tradições".

O tema da homossexualidade não ficou de fora da conferência de imprensa de acompanhamento do Sínodo dos Bispos. Palmer-Buckle foi confrontado com as leis aprovadas em alguns países africanos que criminalizam a prática de actos homossexuais. O arcebispo ganês relembrou a declaração de Papa Francisco “quem sou eu para julgar”, sublinhando o impacto que esta teve nos cristãos africanos. No entanto, alertou que a mudança requer tempo, principalmente quando se trata de algo “que faz parte da cultura há milénios”.

Palmer-Buckle evocou os documentos que têm sido publicado em África, que enfatizam a dignidade das pessoas homossexuais, como um espelho da mudança da visão sobre esta temática. “Estamos a fazer o que podemos, mas é difícil fazer vozes isoladas serem ouvidas, sobretudo quando é algo culturalmente difícil de as pessoas perceberem. Queremos que todos os direitos de todos os filhos e filhas de Deus sejam respeitados em todo o lado e por toda a Igreja”, rematou.

Dia 5: A família foi escolhida para o Filho do Senhor

Foi com um momento de oração presidido pelo Papa Francisco que começou o quinto dia do sínodo. “Estamos dolorosamente impressionados e acompanhamos com profunda preocupação o que se está a passar na Síria, no Iraque, em Jerusalém e na Cisjordânia, onde se assiste a uma escalada de violência que envolve civis inocentes e continua a alimentar uma crise humanitária de enormes proporções”, referiu o Santo Padre antes de dar início à reunião geral.

O chefe da Igreja Católica dirigiu-se à comunidade internacional com um apelo para que esta procure “formas de ajudar eficazmente as partes envolvidas a alargar os seus horizontes para lá dos interesses imediatos”. Ressalvou, ainda, que a solução para os conflitos implica o recurso aos “instrumentos do direito internacional e da diplomacia”.

No dia em que foram publicados os primeiros relatórios dos 13 grupos de trabalho do Sínodo dos Bispos, os intervenientes na habitual conferência de imprensa após os trabalhos da manhã apresentaram-se sorridentes e bem-dispostos.

O Instrumentum Laboris, documento de trabalho que serve de base às discussões sinodais, mereceu grande destaque na conferência, depois de nos relatórios – também entregues aos jornalistas presentes – lhe terem sido tecidas algumas críticas.

O arcebispo Joseph Kurtz, de Louisville, Estados Unidos, chegou mesmo a dizer que considera a linguagem do Instrumentum Laboris pouco inspiradora. “Precisamos de palavras mais simples, mais fáceis de perceber. Tomemos como exemplo o Papa Francisco: ele tem a capacidade de tocar os corações das pessoas quando fala. É isso que é necessário! O nosso grupo sugeriu 27 alterações, muitas delas relacionadas com a linguagem”, sublinhou.

Questionado sobre a “validade” do documento e sobre o facto de ter sido apontado como “confuso” por alguns padres sinodais, o Cardeal Tagle, Arcebispo de Manila, optou por brincar e desvalorizar as críticas.

“Neste sínodo está a ser utilizado um novo método, por isso é perfeitamente natural haver um pouco de confusão. Mas ser confuso é bom!!! Se tudo estiver demasiado claro, é sinal que podemos já não estar na vida real”, brincou. O Arcebispo de Manila, presente num sínodo pela sexta vez, afirmou ainda que o Instrumentum Laboris é um “documento-mártir” e que não faria sentido convocar 300 pessoas para dizerem apenas “sim” sem o escrutinar.

Perante a insistência dos jornalistas em relação à pertinência do documento e, quando questionado sobre a sua finalidade última, Kurtz também resolveu responder em tom de brincadeira.

“Parece que não são apenas os delegados... também os jornalistas deveriam exercitar a paciência!”, atirou. O Arcebispo relembrou que o sínodo é um processo e que “naturalmente haverá conclusões” mas, para já, o importante é ouvir os diferentes testemunhos, “onde reside a verdadeira riqueza do sínodo”. Tagle relembrou ainda os presentes que não é obrigatório que venha a existir uma exortação pós-sinodal, “algo que apenas começou a ser comum com a Evangelii Nuntiandi, de S. Paulo VI”, e que o Instrumentum Laboris pode mesmo vir a revestir-se de um cariz conclusivo. “É uma decisão que cabe ao Santo Padre”, reiterou.

O Arcebispo Carlos Osoro, presente num sínodo pela primeira vez, presenteou a comunicação social com um testemunho na primeira pessoa sobre o significado e valor da família. “Perguntam-me se no Sínodo falamos apenas de famílias cristãs ou de famílias em geral. Claro que falamos de família cristã... Mas também estamos a falar daquilo que é a família em todas as culturas. Vou dar-vos o meu exemplo: o melhor da minha vida, não o aprendi quando fui para a universidade ou no seminário. Aprendi-o na minha família. Foi nela e com ela que aprendi as melhores coisas da minha vida! Saber amar, saber querer, saber respeitar, saber servir, saber entregar-me, saber descobrir que o outro tem muita mais importância que eu, saber respeitar os mais velhos, saber respeitar todos... Foi na minha família também que aprendi a conhecer Nosso Senhor. Os meus primeiros catequistas foram a minha mãe e o meu pai. Creio que a família cristã tem algo tão original, tem tanta força, é criadora de tanto humanismo, ajuda-nos a humanizar a nossa vida... Ensina-nos a amar incondicionalmente com uma misericórdia entranhada como a de Nosso Senhor”, concluiu.

As vagas migratórias, a violência, o aborto e os métodos contraceptivos foram outros assuntos levemente abordados durante a conferência de hoje. Os três intervenientes e o Pe. Federico Lombardi voltaram a insistir no clima de franqueza e de “diversidade cultural e situacional do sínodo” e elogiaram ainda o “tom de celebração” que tem estado associado às várias discussões sobre a família. “A estrutura originária da vida é a família. Lembremo-nos sempre da grandeza deste tema”, repetiu Osoro por várias vezes.

Kurtz confirmou esta ideia quando relembrou que “Deus não enviou o seu Filho para um palácio ou castelo, optou antes por enviá-lo para o seio de uma família”

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