Arquidiocese de Braga -
14 agosto 2026
D. Nélio Pita aponta caminho para uma vida mais equilibrada na Romaria de S. Bento
DM - Jorge Oliveira
O Santuário de São Bento da Porta Aberta acolheu, ontem, uma multidão de peregrinos na segunda grande romaria do ano dedicada ao patrono da Europa.
A Eucaristia solene e a procissão foram presididas pelo bispo auxiliar de Braga, D. Nélio Pita, que convidou os fiéis a redescobrirem um modo de viver mais equilibrado e comprometido com a fé, à luz da vida e da regra de São Bento, «Ora et Labora».
Na homilia, o prelado apresentou o discernimento, a visão e a organização como três características da experiência de São Bento que podem ser motivo de inspiração para os cristãos.
Referindo-se à primeira característica, D. Nélio Pita recordou que São Bento, nascido numa família nobre, abandonou os estudos e a vida confortável em Roma depois de se confrontar com um ambiente que considerava moralmente decadente, enveredando por uma vida de eremita.
A decisão de Bento, observou, é um exemplo da importância do discernimento perante as escolhas da vida.
«Como São Bento, o nosso discernimento deve ser orientado, tendo como propósito o seguimento de Jesus. Por isso, não façamos concessões ao mal, não pactuemos com esquemas que corrompem, não alimentemos projetos de glória meramente mundana à custa do sacrifício de outros irmãos e da exploração dos recursos naturais. Como São Bento, não tenhamos medo de tomar decisões em conformidade com a vontade de Deus, mesmo que sejam decisões contra a corrente», exortou.
Superar a visão meramente individualista
D. Nélio referiu-se depois à visão de São Bento, que foi capaz de olhar para o futuro, atrair discípulos e fundar comunidades monásticas, surgindo, assim, a comunidade beneditina que moldou a história do Ocidente.
Passados 15 séculos, disse, a sua regra, «Ora et Labora», continua a inspirar centenas de milhares de homens e mulheres em todo o mundo.
«Precisamos de alimentar este sentido de família, da pertença a um corpo, que está muito para além dos nossos caprichos pessoais, que tantas vezes semeiam divisões», afirmou.
Perante uma sociedade marcada pelo individualismo, D. Nélio Pita defendeu a necessidade de recuperar o sentido comunitário e de caminhar em conjunto enquanto Igreja.
«Precisamos de superar a visão meramente individualista», reforçou, defendendo uma «Igreja peregrina tendo São Bento como referência» e comprometida na «construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna».
«Juntos, podemos fazer muito mais», acrescentou.
Referindo-se à terceira característica — a organização —, o prelado notou que hoje precisamos de um modelo de equilíbrio entre oração, trabalho, estudo, atividade física e descanso.
Segundo D. Nélio, esta proposta de São Bento continua atual, numa sociedade onde tantas pessoas enfrentam dificuldades em conciliar as diferentes dimensões da vida.
«Através do trabalho físico e de uma alimentação moderada, a regra contém um conjunto de preceitos práticos destinados a equilibrar momentos de oração, trabalho intelectual e corporal, sem desvalorizar o tempo de descanso», notou.
Segundo o prelado, a causa de muito sofrimento no corpo e na mente tem como origem a incapacidade de conjugar harmoniosamente as diferentes áreas da nossa vida.
A vida familiar, profissional, espiritual e relacional, explicou, pode entrar em conflito quando uma dimensão acaba por anular as restantes.
«O modelo organizativo [preconizado por São Bento] deu muitos e bons frutos e hoje precisamos de recuperar este equilíbrio. Precisamos de vidas muito mais equilibradas», defendeu.
A celebração, solenizada pelo Coro de São Bento, contou com a participação de representantes de autoridades civis e militares, entre os quais a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, o presidente da Câmara Municipal de Terras de Bouro, o presidente da Assembleia Municipal, o deputado Carlos Cação (PSD), o presidente da Cruz Vermelha de Rio Caldo, além de representantes da Irmandade de São Bento, sacerdotes, diáconos e seminaristas.
Romaria de São Bento reza pelos migrantes e refugiados
A terceira romaria de São Bento da Porta Aberta decorre em plena 54.ª Semana Nacional das Migrações, subordinada ao tema «Da fragilidade à Esperança».
No início da Eucaristia solene de ontem, presidida pelo bispo auxiliar de Braga, D. Nélio Pita, o reitor do santuário, padre António Loureiro Lopes, associou o santuário à iniciativa através de orações pelos migrantes e refugiados e colocou no centro da celebração as situações de fragilidade e o apelo à construção de um mundo mais fraterno.
«Caminhamos como irmãos e lado a lado, a caminho da construção de um mundo com futuro. Trazemos a nossa vida e a vida na alegria ou na dor, do trabalho ou da oração, viemos com fé, rezamos uns com os outros e uns pelos outros, estamos todos com Deus», afirmou o reitor, saudando os milhares de peregrinos que se deslocaram ao santuário para a grande romaria de agosto, um dos momentos de maior expressão da religiosidade popular em Portugal.
Destacando o significado espiritual destes dias, em que muitos fiéis interrompem o quotidiano para cumprir a sua devoção a São Bento, o sacerdote aproveitou para convidar os presentes a redescobrirem o significado da Eucaristia, enquanto experiência de comunidade e partilha, afirmando que a celebração deve ser vivida como uma família «sentada à volta da mesma mesa, partilhando a mesma história e o mesmo pão».
Evocando a tradição beneditina, o reitor relacionou a experiência dos peregrinos com o lema «Ora e Trabalha», apresentado como um caminho de fé e de compromisso.
«Trazemos na mão e no coração o resultado das nossas ceifas, o trigo novo, deixando correr para produzir frutos abundantes, de caridade, nesta escola de São Bento, “ora et labora”», afirmou.
Romaria termina amanhã
A grande romaria de São Bento da Porta Aberta prossegue hoje com quatro celebrações eucarísticas, às 7h30, 9h30, 11h00 e 16h00, além da oração do Rosário, às 15h30. O programa inclui ainda a celebração de Vésperas e a Missa da Vigília da Assunção de Nossa Senhora (16h00) e um momento de animação no Anfiteatro do Parque (17h00).
Amanhã, 15 de agosto, solenidade da Assunção da Virgem Santa, será o último dia da romaria. Além de quatro Eucaristias, às 7h30, 9h30, 11h00 e 16h00 (esta última solenizada), haverá a oração do Rosário, às 15h30, bem como duas atuações da Banda Musical de Carvalheira, no coreto, às 10h00 e às 18h00.
Bênção das concertinas
Na noite de quarta-feira, viveu-se no santuário um dos momentos tradicionais da romaria, com a bênção das concertinas, seguida da entrega de diplomas aos tocadores.
A iniciativa, com décadas de tradição em São Bento da Porta Aberta, reúne anualmente centenas de tocadores e milhares de romeiros, conjugando a dimensão festiva da romaria com a expressão da religiosidade popular que marca estes dias no santuário.
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