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9 Mar 2019
Um dia para dar graças
Homilia na eucaristia por ocasião da celebração dos 75 anos
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  © Avelino Lima | Sé Catedral

O apóstolo Paulo, na sua carta aos Romanos, centra-nos de imediato naquilo que é essencial: “A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração”. Sabemos que se trata da Palavra de Deus. Uma Palavra a que, desde cedo, nos habituámos a escutar, a confiar e dela sentir conforto e esperança. 

Sendo Palavra de fé, distancia-se das demais palavras banais e vazias. Transforma-nos, educa-nos e, sobretudo, remete-nos para Aquele que é digno de confiança: Jesus Cristo. Apenas Ele e só Ele é Senhor e Mestre. Por isso, os meus joelhos se dobram diante D’Ele num assentimento de fé: Senhor creio e deposito em Ti toda a minha confiança e acredito na Tua bondade que conduziu, desde sempre, os meus caminhos.

Estimados irmãos no Episcopado, estimados capitulares, sacerdotes, diáconos, seminaristas, fiéis leigos, autoridades civis e militares… agradeço a vossa presença nesta solene eucaristia de acção de graças pelo meu aniversário. Sabeis que não faz parte do meu feitio promover momentos de festa. Aceitei esta eucaristia como uma oportunidade para dar graças a Deus pelo dom da vida e para rever, diante D’Ele, o meu ministério sacerdotal e episcopal.

Tomei posse da Arquidiocese de Braga no dia 18 de Julho de 1999. Nesse dia apontei, de modo claro, o objectivo que nortearia o episcopado: “permear a vida das nossas comunidades com este fermento da Palavra, da Boa Nova”. Estava convencido – e assim continuo – que apenas a Palavra de Deus tem a força para compor e recompor o tecido eclesial, humano e social. Ainda hoje, mais do que então, numa sociedade aparentemente indiferente ao religioso, a Palavra de Deus pode e deve inspirar as nossas opções individuais, assim como os grandes valores que norteiam a nossa identidade enquanto nação. Fraternidade, igualdade, serviço, esperança, amor… são um tesouro trazido pelo Verbo de Deus e que se quer fazer carne nas famílias, nas comunidades cristãs, mas também nas empresas e na política. Companheira desta nossa Arquidiocese há quase dois milénios, a semente do Evangelho despontou esperança no percurso histórico do nosso povo e inspirou profundamente os meus antecessores mais imediatos, homens com uma densidade humana e espiritual amplamente reconhecidas: D. António Bento Martins Júnior, D. Francisco Maria da Silva e D. Eurico Dias Nogueiras. Recordo-os para dar graças da Deus pelo seu trabalho.

Olhando para o início do meu episcopado, sob o signo do nosso amado S. João Paulo II, recordo-me sempre com emoção do Sínodo Arquidiocesano (1994-1997). Foi, talvez, a experiência mais enriquecedora da minha vida sacerdotal e programática para o meu ministério episcopal. Expressão clara do desejado exercício da corresponsabilidade e participação eclesiais, o Sínodo Arquidiocesano sintetizou tudo aquilo em que acredito: “caminhar com todos, esperando o contributo de cada um na edificação de uma Igreja mais bela, de uma sociedade mais fraterna, de uma cultura da vida e de uma civilização do amor”. Creio ser testemunho eloquente desta realidade os muitos Grupos Sinodais que se constituíram, bem como as Assembleias de reflexão, programação e decisão. Hoje, queremos que os Grupos Semeadores de Esperança sejam espaços para intuirmos a comum vocação de sermos discípulos missionários.

Como gratidão e compromisso, deixo três pensamentos.

1. Unidade no presbitério. A minha divisa episcopal é, como sabeis, “Que todos sejam um”. Ao Espírito Santo sempre invoquei o dom da unidade com todos, sem excluir ninguém, numa opção preferencial pelos pobres. Mas, como prioridade, o meu coração sempre esteve junto dos sacerdotes. São eles o motor e a razão primeira do meu episcopado. Ainda hoje recordo com comoção os anos de graça que vivi como Vigário para o Clero. Percorri milhares de quilómetros, investi centenas de horas e dei tudo de mim em seu favor. Esta paixão prolongou-se depois ao longo do meu episcopado. Nas mais diversas instâncias consultivas (Cabido, Conselhos Episcopais, Presbiterais e de Arciprestes) procurei dar voz aos pastores, ouvir os seus conselhos e a decidir sinodalmente. Não me arrependo por um segundo. Continuo a depositar uma grande esperança em todos os sacerdotes que me foram confiados. Agradeço-lhes, por fim, a unidade que demonstraram e que contribuiu para, no espírito da Sacrosanctum Concilium, manifestar a genuína vida da Igreja: “uma única celebração, numa única oração, ao redor do único altar a que preside o Bispo rodeado pelo presbitério e pelos ministros”.

2. Insatisfação na pastoral. É de todos conhecida a minha atitude na pastoral: “contente mas insatisfeito”. A atitude mais fácil para todo o cristão, mas também para qualquer pessoa, é a da acomodação. Contentar-te com o que já foi realizado não será uma “tentação”? Recordemo-nos da parábola do rico insensato que dizia para si mesmo: “Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te” (Lc 24, 19). Não gostaria de viver acomodado. Alegro-me com o muito que se tem realizado na Arquidiocese de Braga mas vivo, ao mesmo tempo, com a consciência de que a messe é grande e muitas pessoas aguardam ainda a nossa ajuda, seja ela de tipo espiritual, humano ou material.

No dia da minha tomada de posse referia algumas situações candentes e que, hoje, reconheço serem igualmente urgentes: situações de desemprego e de trabalho precário, dificuldades no acesso à vida activa, exploração, abandono e solidão de muitos idosos, marginalidade na juventude, demissão no exercício da corresponsabilidade e participação, corrupção e violência. Muitos outros dramas poderiam ser acrescentados. Pergunto-me se não será também importante cuidar da anemia espiritual. A Igreja precisa de uma alma. O Santo Padre, Bento XVI, por ocasião da sua vinda a Portugal, alertava-nos que não podíamos dar por pressuposto que a fé existe. Sabemos que é verdade, assim como sabemos que, apesar de vivermos numa região do país tradicionalmente religiosa, uma fé esclarecida e comprometida pode não existir. Tarefa nunca acabada! O nosso mundo necessita de descobrir a alegria que a fé oferece. A reestruturação da Cúria, em curso, pretende isso mesmo: redescobrir a fé, construir comunidades acolhedoras e missionárias. Tudo com o pressuposto de primeiro uma relação com Deus, consciente, verdadeira e pessoal. O resto acontecerá com a toda a naturalidade.

3. Confiança nos leigos. Gosto de me considerar um bispo do espírito do Concílio Vaticano II. Foi uma experiência marcante na minha juventude mas também para o modo como encaro o ministério episcopal. De entre as diversas inovações do Concílio, uma das que considero mais significativas é o compromisso e a corresponsabilidade dos leigos no agir eclesial. Cada um, segundo os seus dons e carismas, é chamado a contribuir para a edificação do Reino de Deus. Precisamos de confiar neles e de lhes conferir responsabilidades. Faz parte da sua identidade baptismal o compromisso com a acção pastoral, seja na Igreja, na família, no trabalho ou na coisa pública.

Existem áreas da pastoral que podem e devem ser confiadas aos leigos, homens e mulheres. Creio que este é tanto um sinal de maturidade da Igreja como o reconhecimento de que Deus nos convoca a todos para a missão, independentemente do estado de vida. “Todos, tudo e sempre em missão”.

Estes são apenas alguns momentos e traços mais significativos do meu ministério episcopal. Haveria muitos outros que poderia sublinhar. Entrego tudo nas mãos de Deus e dou-Lhe graças pelo dom da vida e pelos muitos e bons colaboradores, sacerdotes e leigos, que me acompanharam ao longo dos últimos anos. Foram e são “bons samaritanos” a quem devo muito do quanto foi alcançado.

Louvo a Deus pelo caminho percorrido e rezo para que Sta. Maria de Braga nos faça compreender que o Espírito Santo continua a deixar as suas interpelações, encaminhando-nos para opções que ainda não foram convenientemente assumidas.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

 

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