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26 Jan 2020
Renovação eclesial a partir da Palavra
Homilia na Visita Pastoral a N. Sra. da Oliveira
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Nos últimos anos temos vindo a reflectir sobre a identidade do cristão neste tempo peculiar de incredulidade e indiferenças. Assumimos um estatuto que continua a ser um programa de vida. Somos cristãos quando aceitamos ser discípulos e acolhemos a responsabilidade de ser missionários.

O Papa Francisco, no passado dia 30 de Setembro de 2019,  dirigiu aos cristãos uma Carta Apostólica, Aperuit illis “Abriu-lhes o entendimento”, onde nos convida a reconhecer Cristo como Ressuscitado, vivo na História, que continua a abrir-nos os tesouros da Sua Palavra e a constituir-nos verdadeiros arautos das maravilhas que ela encerra. Perante esta certeza, devemos sentir-nos agradecidos por tão grande dom, comprometidos a vivê-lo no dia-a-dia, e responsáveis por testemunha-la com coerência. Na verdade, não podemos ignorar a Palavra e teremos de a colocar no coração da vida da Igreja. 

Se nos propusemos a interpelar uma renovação da Igreja, não podemos cair na tentação de nos concentrarmos exclusivamente na procura de novas iniciativas pastorais, elaborando muitas actividades em ordem a uma pretensa Igreja viva e credível. Sabemos que não basta repetir hábitos e rotinas que caracterizaram o passado. Só que, por um lado, não podemos cair na exaustão de concentrar energias em fazer coisas mais ou menos ao gosto ou imitação de uma civilização dita moderna. O caminho da renovação consiste num percurso de familiaridade e estudo das Sagradas Escrituras.

Com esta Carta Apostólica, o Papa Francisco “estabelece que o III Domingo do Tempo Comum seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus”. Não se trata de mais um dia a encher as nossas agendas. Também não é uma iniciativa pastoral. 

“O dia dedicado à Bíblia pretende que durante todo o ano nos tornemos «familiares e íntimos da Sagrada Escritura»”. Com esta finalidade teremos de saber que a Bíblia não é uma simples colectânea de livros históricos, mas acima de tudo é a presença do Ressuscitado que nos explica a história da Salvação. Aconteceu isto mesmo com os discípulos de Emaús que caminhavam desanimados e desorientados. O Ressuscitado intrometeu-se na conversa e explicitou os acontecimentos da história que estavam a viver. 

Esta certeza terá de acompanhar o discípulo que reconhece a necessidade de pegar nos Textos Sagrados. Importa ler e reler. Sozinho ou acompanhado. Meditando ou em Lectio Divina. As modalidades são muitas e ninguém pode desculpar-se por não ter ofertas de subsídios. Possuir a Sagrada Escritura é o primeiro gesto. Ela não é um elemento decorativo a ser comprado, talvez, em edições de luxo. Necessitamos de dar importância à sua leitura diária, ao seu aprofundamento. 

Recolocando a Palavra de Deus no quotidiano da vida dos cristãos e da Igreja, reconhecemos que o “papel do Espírito Santo na Sagrada Escritura é fundamental”. O que quer isto dizer? Que Ele “transforma a Sagrada Escritura em Palavra Viva de Deus”. A sua acção não diz respeito apenas à redacção da Sagrada Escritura, mas actua também naqueles que se colocam à escuta. “Continua a realizar uma sua peculiar forma de inspirações, quando a Igreja ensina a Sagrada Escritura, quando o magistério a interpreta de forma autêntica e quando cada crente faz dela a sua norma espiritual”. 

Temos recordado imensas vezes que a vida cristã não é o simples cumprir de um conjunto de normas e preceitos para agradar a um Deus distante, justiceiro e castigador. É uma intimidade com Deus a partir das realidades terrenas. É aqui que a luz da Palavra de Deus deve chegar para ir transformando o normal do dia-a-dia num projecto de encontro com Deus. Não é uma doutrina teórica a aprender como tantas outras na escola. A presença do Espírito ilumina e orienta. Tudo se torna então novo e diferente.

Não temos melhor exemplo do poder transformador da Palavra de Deus do que a vida de Maria. O Santo Padre refere este pormenor dizendo que “no caminho da recepção da Palavra de Deus, acompanha-nos a Mãe do Senhor, reconhecida como bem-aventurada por ter acreditado no cumprimento daquilo que lhe dissera o Senhor. A bem-aventurança de Maria antecedeu todas as bem-aventuranças pronunciadas por Jesus para os pobres, os aflitos, os mansos, os pacificadores e os que são perseguidos, porque é condição necessária para qualquer outra bem-aventurança”. Num mundo de tristeza e de desilusões é fundamental reconhecer que a Palavra torna a vida festiva e alegre. Importa que isso se veja nos rostos das pessoas e nos pormenores da vida pastoral.

Formados pela Palavra, temos a alegria de a anunciar. Não somos só discípulos. A palavra deve incarnar em todos os contextos da vida transformando-os em realidades verdadeiramente humanas. “O texto sagrado inteiro possui uma função profética: esta não diz respeito ao futuro, mas ao hoje de quem se alimenta desta Palavra, pois tornámo-nos” contemporâneos das pessoas que encontramos, e aí descobrimos terras adequados para Semear a Palavra. Outrora o anúncio da Palavra era reservado aos sacerdotes. Hoje tem de ser missão de todos. Só se falava dela nas igrejas ou seus espaços. O Espírito hoje, pelo testemunho e palavra de todos, tem de falar em todos os contextos onde se desenrola a vida humana. Todos a anunciar e em todos os lugares é algo a redescobrir.

Nesta primeira vez em que celebramos o dia da Palavra, solicito a todas as comunidades que dediquem momentos para a sua “celebração, reflexão e divulgação de Deus”. Criemos iniciativas. Cada comunidade fará quanto estiver ao seu alcance. Nunca num só Domingo. Este ajudará a que a Palavra seja o centro da vida cristã, pessoal e comunitária.

Ao terminar as Vistas Pastorais ao arciprestado deveríamos acolher o compromisso, em termos arciprestais, de zona ou de paróquia, de fazer com que a pastoral gravite em torno da Palavra. Por vezes queremos conclusões ou compromissos. Esta deveria ser a primeira. Não deveria existir nenhuma iniciativa que não partisse desta referência. Já tivemos Escolas da Palavra. Não será o momento de as reintroduzir? Os Grupos Semeadores de Esperança tiveram na sua origem esta motivação. Importa acreditar na sua importância para a renovação da Arquidiocese e das paróquias. Não será que estas gravitam exclusivamente em torno de eucaristias, nem sempre vividas, e que nem sempre deixam uma proposta de vida a partir das leituras? Revisitemos com coragem o agir das comunidades e encontremos modos e pessoas que testemunhem esta mudança. Como aos discípulos de Emaús que caminhavam desencantados com a vida, também hoje Jesus quer abrir o entendimento de todos, sacerdotes e leigos, para reconhecer que só a Palavra de Deus estudada, meditada, compreendida, vivida mostrará que a originalidade da Igreja está na mensagem que não é Sua e, se o é, é porque Ela permite que Ele continue a percorrer connosco os caminhos da História da Salvação e explicar os enigmas da Vida.

Tenho o grato prazer de oferecer dois exemplares dos evangelhos a todos os presentes. Quem quiser poderá recolhê-los à porta da Igreja. É um simples sinal para que os cristãos aproveitem tantos subsídios que hoje são colocados à disposição. Procuremos saber o que existe. Há quem caminhe para o trabalho ouvindo um breve comentário das leituras. Há quem não saia de casa sem ler e partilhar um texto sagrado.

Rezemos para que a renovação das paróquias passe por aqui. Talvez tenhamos muitas devoções e pouco encontro com a Palavra.

Que a Senhora da Palavra acolhida, vivida e anunciada, Nossa Senhora da Oliveira nos conduza por estes caminhos inovadores.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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