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5 Abr 2020
Domingo de Ramos
Homilia no Paço Arquiepiscopal
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  © Arquidiocese de Braga | Paço Arquiepiscopal

Para um novo modo de ser Igreja

Com o Domingo de Ramos, abrimos as portas à Semana Maior para os cristãos. Igual na sua extensão temporal a tantas outras semanas, reveste-se, contudo, de uma densidade e relevância que nos leva a repensar totalmente a nossa identidade cristã e o nosso lugar na sociedade.

Não são acontecimentos menores, irrelevantes, aqueles que foram vividos por Jesus e seus apóstolos. Recordamos, por isso, com responsabilidade, as opções tomadas pelos contemporâneos de Cristo e que culminaram na sua morte. O rumo da História pode ser influenciado positivamente por um acto de coragem da nossa parte ou então condenado por inércia ou incoerência. É hora de começar a pensar no futuro da Igreja e da sociedade. Compete-nos esta grande tarefa.

É este o pensamento que me vem à mente ao escutar os Evangelhos da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e o relato da condenação e morte de Cristo. O ambiente favorável da entrada em Jerusalém criou a ilusão de que aquele povo apoiava Jesus, que lhe queria bem e o incentivava na sua missão. Passadas poucas horas, mudando as circunstâncias, a outrora multidão efusiva dispersou-se e um pequeno grupo exigiu, inclusive, a sua morte. Creio que este cenário nos deve fazer pensar.

Vivemos tempos onde se jogam os valores que marcam a nossa identidade. Nas últimas semanas, o cenário da pandemia agravou-se, muitos portugueses faleceram, alguns até nossos conhecidos. Traga-os à memória nesta eucaristia e peço ao Senhor que console as suas famílias no meio de tanto sofrimento. Mas, com estes acontecimentos, abra-se uma nova página para a Igreja e sociedade, que teremos de começar a escrever desde já.

Nunca como hoje, precisamos de verticalidade, isto é, firmeza, consistência e sintonia nas acções e valores. Quando está em jogo a vida de um povo, ninguém pode remar a seu belo prazer, fazer prevalecer ideias que coloquem em risco as outras pessoas ou tomar atitudes lesivas ao bem comum. Talvez tenha sido este um dos equívocos dos contemporâneos de Jesus. Pensando tratar-se apenas de um homem, deixaram-no à Sua sorte, virando as costas e seguindo acriticamente as vozes anónimas da multidão. Ora, esta situação social que agora vivemos, faz-nos perceber, talvez como nunca antes, o que líamos há muito no livro do Génesis: “O SENHOR disse a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» Caim respondeu: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim” (Gn 4,9). Sim, todos somos guardiães, ou seja, cuidadores uns dos outros. As nossas atitudes têm um real impacto na vida das pessoas e, em última circunstância, no rumo dos povos e da Humanidade como um todo. Como nunca, apercebemo-nos daquilo que a vida de cada um pode fazer.

Como habitualmente, celebramos hoje o Dia Mundial da Juventude. Olhamos para a enorme potencialidade dos sonhos e ideais dos jovens mas, ao mesmo tempo, parece-nos que ainda não perceberam o valor acrescentado de um projecto de transformação alicerçado em valores evangélicos. Aos jovens, sobretudo aos jovens cristãos, compete-lhes repensar a Igreja do futuro, assim como dar um novo sentido colectivo à nossa sociedade. Como bem nos recordou há poucos dias o Papa Francisco: “estamos todos no mesmo barco”. Este é o barco da Igreja, onde outrora Jesus navegou com os seus discípulos, mas também o barco da Humanidade. Estando no mesmo barco, todos somos responsáveis pelo bem do outro e, quem sabe, se os jovens, com um olhar mais límpido, não podem ajudar tanto a Igreja como a sociedade a navegar por novos mares? Estamos no mesmo barco com os jovens mas com todos também. A Igreja do futuro é povo. Comecemos, desde já, a dar o nosso contributo para um novo modo de ser Igreja. Teremos de ser produtivos e não ficar à espera. Para ajudar nesta tarefa, vou deixar, para hoje, três pormenores.

Importa que a Igreja seja capaz de sair dos seus esquemas habituais para se situar ao nível de novos ritmos de vida. Sto. Agostinho interpretou a sua missão de um modo muito original: falava para todos. “Antes de mais – dizia ele – sou cristão convosco e depois bispo para vós”. É este o caminho que a Igreja terá de percorrer, sobretudo pensando nos jovens. Sermos, antes de mais, cristãos com jovens e com as outras pessoas, participar da comum dignidade de baptizado, acompanhar as coordenadas e experiências das suas vidas, procurando identificar onde estão as aspirações a satisfazer ou os problemas a resolver. A Igreja deve avançar desarmada, com total liberdade e disponibilidade. Sem argumentos no bolso, prontos a serem usados para julgar ou condenar. Queremos ser “jovens” com os jovens para um cristianismo de proximidade, mostrando que vivemos sem qualquer outro interesse senão mostrar a alegria e a festa de um mundo diferente que o Evangelho pode proporcionar. Também com todas as outras pessoas, a Igreja do futuro deverá estar marcada por uma sinodalidade que se aproxima de todos para caminhar com cada um.

Por outro lado, não podemos teimar na postura de acharmos que somos os exclusivos detentores da verdade. Para esta Quaresma, sugeri um itinerário onde deveríamos privilegiar o conhecimento. Conhecer a mensagem de Jesus. Mas, mais do que a mensagem, importa conhecer a pessoa de Jesus Cristo. O Papa Francisco recorda-nos que Cristo não é uma simples personagem histórica de quem aprendemos alguns ensinamentos. Os jovens, mas também os adultos, não querem ideologias! Deixam-se tocar por alguém que caminha com eles apontando caminhos de autenticidade e radicalidade. O Papa Francisco, na carta apostólica Querida Amazónia fala do “transbordamento” como a nova maneira de agir e viver dos cristãos. Só o testemunho caracteriza a Igreja do futuro.

É nestas três atitudes – caminhar como povo, ter proximidade e dar testemunho – que caminharemos rumo a uma Igreja do futuro. É preciso confiar, dar espaço e aprender o melhor modo de levar o Evangelho aos ambientes do quotidiano: ao ensino, às famílias, aos grupos de amizade, ao trabalho e à própria Igreja. A responsabilidade é enorme, mas a Igreja não poderá continuar pelos caminhos de sempre. O futuro quer novidade.

É grande a dor, a incerteza, que vivemos neste dias. Mas também é grande a nossa esperança. Jesus Cristo está presente no meio de nós, partilha das nossas angústias e dores. Se o permitirmos, também nós podemos ser esse outro Cristo presente na vida de tantos nossos conhecidos e desconhecidos. “Estamos todos no mesmo barco”, para o bem e para o mal.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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