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9 Abr 2020
Missa Vespertina da Ceia do Senhor
Homilia no Paço Arquiepiscopal
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A caminhada cristã em direcção à Páscoa tem um itinerário bem preciso: vai da cabeça aos pés. Do rito da imposição das cinzas ao lava-pés. Um percurso que na maior parte das pessoas não chega aos dois metros, mas que existencialmente leva toda uma vida a ser percorrido. Uma peregrinação longa e exigente, cujo tempo da Quaresma, desde a Quarta-feira de Cinzas à Quinta-feira Santa, não esgota, e muito menos uma quarentena forçada. 

Na minha carta aos sacerdotes para viver a Páscoa em tempo da pandemia Covid-19, tal como na carta que lhes dirigi há dias, a propósito da celebração da Quinta-feira Santa, cuja a missa crismal fomos impedidos de celebrar por razões de saúde pública, exortava os sacerdotes e leigos a viverem uma Páscoa de páscoas. Uma Páscoa celebrada e vivida com gestos muito concretos, num tempo excepcional, em que todos os sinais exteriores a que nos habituamos não podem ser realizados. Este ano as procissões foram canceladas, o compasso não passa pelas nossas ruas, nem entra em nossas casas, a cruz não é dada a beijar, não há o recolher da cruz, não há Segunda-feira de Pascoela, nem Domingo de Pascoela. Mas, caríssimos irmãos e irmãs, há Páscoa e essa nunca podemos deixar de a celebrar porque temos um mandato, uma exigência do próprio Senhor. Esta deve passar pela atenção aos pequenos gestos, a omitir porque negativos, ou a repetir para criar hábitos, de modo que o mundo das nossas relações se altere.

Na Palavra que o Senhor hoje nos dirige, as três leituras falam da celebração da Páscoa no Antigo Testamento, a celebração da Páscoa na comunidade de Corinto, fundada por S. Paulo e a celebração da Páscoa realizada por Jesus no seu êxodo, isto é, passagem deste mundo para o Pai, na qual a Páscoa antiga encontra a sua plena realização. 

Na leitura do Livro do Êxodo, o Senhor diz a Moisés e Aarão quando, como e porquê devem celebrar a Páscoa. Na segunda leitura, Paulo assegura aos Coríntios que recebeu do Senhor o que lhes transmitiu, ou seja, o que se realiza na eucaristia faz-se em obediência aos gestos e palavras de Jesus sobre o pão e sobre o vinho. 

No Evangelho segundo S. João não nos é narrada a instituição da eucaristia. Em vez de falar da eucaristia, S. João narra o gesto surpreendente de Jesus que lava os pés aos seus discípulos. 

Sim, é verdade que hoje a grande maioria de nós não pode estar reunido em assembleia, numa igreja ou catedral a celebrar a eucaristia e a alimentar-se do corpo de Jesus. E, no entanto, paradoxalmente, este é um tempo da graça de Deus. Sacerdotes e leigos sentimos, talvez mais do que nunca, o quanto é valiosa e imprescindível a eucaristia. O quanto nos faz falta estarmos reunidos no amor do Senhor à volta do mesmo altar. O desejo e a fome de comungar o corpo de Jesus. A falta e a necessidade de nos tocarmos no gesto da paz, num cumprimento, num abraço ou num beijo que se dá. Por muito boa que seja a qualidade da ligação à internet nas nossas casas, já todos percebemos que nenhuma transmissão em directo da eucaristia substitui a presença física e o calor humano da comunidade. Aproveitemos o dia de hoje para dizer a Jesus obrigado pelo dom da eucaristia. E agradeçamos de viva voz o dom do sacerdócio e de todos quantos tornam as nossas eucaristias sempre festivas.

Mas, se nem todos podemos celebrar plenamente o sacramento da eucaristia, S. João apresenta-nos uma acção de Jesus, o gesto do lava-pés, que nós devemos acolher e repetir como memorial para concretizar, isto é, “eucaristizar” a vida. “Eucaristizar” é um verbo que, nós cristãos, temos de aprender a declinar, para não corrermos o risco de fazer da eucaristia um rito mágico, um “ir à missa” sem viver a missa. Celebrar a eucaristia, viver a eucaristia, viver a partir de Cristo, com Cristo e em Cristo, exige de cada um de nós a capacidade de lavar os pés uns aos outros. Pode parecer um gesto estranho. Se prestarmos atenção verificamos que S. João nos diz que Jesus já tinha amado os seus, mas agora “amou-os até ao fim”. Passou a vida fazendo o bem e na hora da despedida quis mostrar aos mais próximos o essencial da sua mensagem. Não o fez com palavras, mas tornou-se mestre com actos concretos. 

A situação de quarentena, em que nos encontramos, é um momento privilegiado para nos convencermos de que a Igreja, de hoje e do futuro, terá de ser um Igreja Eucarística. Eucarística porque a Eucaristia terá de estar sempre no centro, de modo que não possamos viver sem ela e porque a vida deverá ir interpretando o que liturgicamente celebramos. Estarmos reunidos à volta da mesma mesa, sem distinção nem privilégios, e que, antes da festa eucarística e sempre, teremos de ser cristãos de toalha à cinta, sempre prontos para lavar os pés. O que isto quer dizer Deus nos inspirará, sugerindo um sem número de gestos onde cada um se coloca de joelhos diante dos outros, nunca em atitude de servilismo, mas sempre de amor puro, para expressar comunhão e solidariedade. 

Caríssimos irmãos, as medidas excepcionais de precaução para não propagação do coronavírus obrigaram-nos a omitir a cerimónia do lava-pés. Mas tal como a celebração da eucaristia, que nem todos podemos celebrar plenamente, fez-nos reconhecer que não podemos viver sem eucaristia, que a omissão deste gesto nos faça tomar consciência que não é um mero rito, mas revelação do amor incondicional de Jesus por todos nós, manifesto na morte de cruz e celebrado na eucaristia e que queremos interpretar permanentemente.

Hoje é o dia do mandamento novo que distingue os cristãos de todos os outros. Só quando amamos é que somos discípulos de Cristo. Pensemos, por isso, na urgência de trabalharmos para uma Igreja que nasce da eucaristia e, como tal, se afirma como testemunho permanente do amor recíproco. Eu creio numa Igreja Eucarística que coloca a toalha à cinta para servir a todos.

Hoje, no fim da eucaristia, individualmente e/ou em família, pensemos num gesto que podemos realizar de modo a dar corpo ao pedido de Jesus “Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também” (Jo 13, 14-15). Depois, multipliquemo-lo sem contar.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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