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10 Abr 2020
Sexta-feira da Paixão do Senhor
Homilia no Paço Arquiepiscopal
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Chegamos, hoje, ao dia mais intenso do ciclo da Paixão e Morte do Senhor. É doloroso termos de escutar passivamente este iníquo e cruel interrogatório a Jesus, que, como sabemos, O conduziu à morte. Nas sociedades ocidentais há, na justiça, um princípio basilar que salvaguarda a dignidade da pessoa e a confiança na justiça: a presunção da inocência. Ninguém pode ser condenado sem provas irrefutáveis. 

O que aqui assistimos foi algo que está nas antípodas da nossa mentalidade. Pilatos bem sabia que Jesus era inocente. “Não encontro n’Ele culpa nenhuma”. E todavia o julgamento continuou, mesmo sabendo-se da Sua inocência. A razão era simples. Caifás deu o seguinte conselho aos judeus: “Convém que morra um só homem pelo povo”. Era necessário que Jesus morresse para que os interesses dos judeus e sacerdotes fossem alcançados. E aqui percebemos realmente o que é a maldade humana. Mesmo sabendo da inocência e do terror que seria infligido, maquinou-se um plano diabólico, pensou-se nos detalhes, anteciparam-se conversas e, por fim, deu-se uma capa de espiritualidade para justificar os actos.

Este é, por isso, o tempo de olharmos de frente para a cruz e repensarmos a nossa relação com a Verdade, a justiça e a religião. Que sentido poderá ter esta narração, duas vezes milenar, para cada um de nós e para a sociedade do nosso tempo? Que lugar tem a cruz nas minhas decisões? 

Neste dia em que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado, olhamos para a cruz do Senhor em atitude de adoração e pedimos pela salvação do mundo inteiro, neste tempo de dúvida e de dor. Apesar das incertezas dos tempos actuais, se nos deixarmos olhar e amar por Jesus Crucificado poderemos vislumbrar um futuro de esperança! No nosso sim de cada instante a Jesus crucificado, recebemos o dom do Espírito Santo que nos dá a capacidade de, também nós, tal como Ele, amarmos até ao fim.

É, de facto, importante que cada um de nós se pergunte: como me relaciono com Jesus Crucificado? Que sentido tem a Sua e a nossa cruz na minha vida? Que sentido tem a cruz de muitas pessoas que vivem angustiadas, abandonadas, maltratadas? O que podemos fazer, enquanto comunidade, para partilhar as cruzes uns dos outros, amenizando as dores que cada um sente? Penso de modo particular, neste dia, na cruz da doença, do sofrimento psicológico, da angústia da incerteza, do abandono. Penso em tantas pessoas que planeavam passar esta quadra com os seus familiares, nos nossos imigrantes, mas também nos idosos, nos pobres. Nossos irmãos que já, ao longo do ano, são descartados e agora vêem a sua fragilidade ainda mais acentuada. 

Que dor é esta que somos chamados a partilhar e como pode ela fazer-nos crescer enquanto pessoas, sociedade e Igreja? 

O mistério da Cruz pode ser olhado sob dois pontos de vista: a partir do homem e a partir de Deus. Do ponto de vista humano, a cruz é um concentrado de dor, horror, mentira, injustiça, violência e sangue. É uma vertigem de crueldade e maldade, que exprime e concentra todo o mal da história. Ela é a contradição de todos os sonhos e ideais da Humanidade, da prosperidade da sociedade e da bondade desejada por cada ser humano. Neste sentido, podemos dizer que a cruz é obra do diabo, o divisor, aquele que fragmenta a unidade ética, social e espiritual que caracteriza o ser humano. 

Do ponto de vista de Deus, a cruz é um mistério de amor, de compaixão, de misericórdia e de redenção. Por ela, Deus quis amar a Humanidade para a libertar de tudo o que a vai destruindo. Daí que, aos pés da cruz, compreendamos todo o mistério de Jesus e do seu Amor. Na cruz, Jesus diz tudo o que é! Não a procurou voluntariamente. A cruz foi-lhe imposta e, todavia, onde antes havia morte passou a haver vida, onde havia rancor passou a haver amor. Do ódio fez a paz, da condenação fez o perdão. 

A cruz não é nunca um caminho a percorrer. É o fim de um caminho. No encontro com ela, quotidianamente, estamos a gerar vida nova. Ele exige abertura ao futuro e nunca apego ao passado. O passado pode ser muito rico. Mas os tempos são outros e com outras exigências. A morte exige vida. Nunca poderá cantar vitória.

Se a cruz nos projecta para o vai acontecer, também a Igreja deve olhar para a frente. Desde ontem temos procurado indicar um traço da Igreja do futuro, um caminho a percorrer após este “exílio” que a todos nos abanou interiormente. Então, diante da cruz, creio que a Igreja de amanhã, todos os cristãos, terão de viver uma profunda experiência pessoal com Deus. Podemos perguntar-nos se não foi sempre assim? Talvez possa parecer, mas creio que não. Durante bastante tempo delegamos na Igreja, na comunidades, nos outros, o rumo do nosso itinerário de fé. Fomos esperando que nos dissessem como viver a relação com Cristo e esperando sempre a validação das nossas opções. Hoje, o cristão terá necessariamente de aprender ou reaprender a viver com Deus, de um modo consciente e responsável.

Este tempo extraordinário faz-nos recordar, de um modo eloquente, a Igreja doméstica, complementar à grande comunidade, onde na intimidade do nosso lar, sozinhos ou em família, aprendemos a arte da proximidade a Deus. A fé não pode ser imposta, nem ninguém pode ser obrigado a acreditar. Se tal acontecesse, estaríamos perante uma formalidade de gestos exteriores e vazios. A fé é um movimento interior do Espírito, que precisa de ser alimentado todos os dias no ambiente familiar. Mais tarde, vai crescer em comunidade. É com alegria que vejo as muitas fotos que nos vão chegando: os pequenos oratórios da Palavra criados em família, orações familiares envolvendo pais e filhos, experiências familiares de catequese, diálogos sobre temáticas cristãs. São pequenas sementes de esperança que nos fazem acreditar numa Igreja diferente para o dia de amanhã. Nesta Sexta-feira Santa, com o dramatismo da cruz, quero deixar como que um traço da Igreja do futuro. Karl Rahner dizia “o cristão do futuro ou será um místico ou não será cristão”. 

A Paixão de Cristo lembra-nos que muito do que temos por garantido há-de de morrer e desaparecer. Cristo no calvário teve sede. O cristão vai ter de ser um homem ou mulher com sede de Deus e, para isso, terá de recorrer a fontes novas, de onde jorra uma água nova. Antes de revermos as estruturas da Igreja, temos a obrigação de nos fixarmos no essencial da fé e encarar a vida com grande abertura ao Espírito e acreditamos que Ele nos quer conduzir a novas aventuras. Ele e só Ele.

Maria, “sofrendo com o teu Filho, morrendo na cruz, cooperaste de modo todo especial na obra do Salvador, com a obediência, esperança e a caridade ardentes” (LG 61): inspira aos homens e mulheres do nosso tempo pensamentos de doçura, de perdão e de partilha generosa para uma Igreja com futuro. Assim seja!

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

 
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