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28 Jun 2020
Espírito de serviço
Homilia na Ordenação dos Diáconos
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A liturgia da Palavra oferece-nos duas narrativas muito significativas. O Evangelho, depois de elencar o que é necessário para ser um autêntico discípulo de Cristo, afirma solenemente: “E se alguém der de beber, nem que  seja um copo de água fresca, a um deste pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”. Nada do que é dado a quem necessita fica sem pagamento. Na primeira leitura, o profeta Eliseu, quando passava por uma localidade, era convidado a tomar uma refeição na casa de uma senhora que não o conhecia e a quem, depois, a mesma senhora quis construir um quarto para lhe proporcionar descanso no meia da sua tarefa profética. Também este gesto foi recompensado e a senhora recebeu muito mais do que o que deu.

A história da Humanidade é sempre uma história de interdependência. Ninguém vive só com as suas capacidades e dons. O outro completa-nos sempre. Se experimentamos isto no passado, a actual situação de pandemia ainda o sublinha mais. A anormalidade deste tempo, onde o vírus está a impor a sua tirania, veio sublinhar isto ainda de um modo mais evidente. Só que nem tudo pode ser visto negativamente. O Papa Francisco, numa carta que escreveu aos seus sacerdotes da diocese de Roma, compreendeu muito bem a situação e deixou-nos pistas para a nossa acção eclesial. Vou servir-me do seu pensamento para que, na ordenação dos diáconos, consigamos extrair um apelo para toda a  diocese bracarense.

Olhemos para a realidade que nos circunda. Sofremos a perda repentina de familiares, amigos, vizinhos, conhecidos, paroquianos. Presenciamos os rostos tristes daqueles que não puderam estar perto e dizer um último adeus de amor aos seus familiares e entes queridos. Participamos dos sofrimentos e impotência dos nossos profissionais de saúde que, exaustos e talvez desanimados, se esgotaram em intermináveis horas e dias de trabalho, sempre preocupados com os tratamentos a prestar. Podemos verificar a insegurança e o medo de tantos trabalhadores e voluntários que diariamente enfrentaram a dureza resultante de assegurar os serviços essenciais. Não ignoramos as dificuldades e os transtornos provocados pelo confinamento social que veio provocar solidão e isolamento, custoso para todos, mas, ainda mais, para os idosos e para as crianças. Como consequência de tudo, gerou-se incerteza pelo trabalho que provocou angústia e interrogações quanto ao futuro pessoal e familiar.

São muitas as situações que conhecemos e que poderíamos continuar a elencar. Tudo isto veio mostrar a nossa vulnerabilidade e impotência. Tudo se tornou precário e de difícil previsão do futuro. Na verdade, a vida tem muitas limitações e, por isso, experimentamos a nossa pequenez. Tudo se confronta com os limites de uma vida repleta de enigmas e interrogações.

Nesta vulnerabilidade e pequenez, Cristo ressuscitado surge como alguém que ultrapassou a morte, que experimentou as feridas atrozes de uma Humanidade desorientada e que quer criar uma vida nova fazendo com que a esperança volte a dotar-nos de uma grande capacidade para criar um novo mundo. A ressurreição de Cristo deve inspirar-nos e exigir que não nos detenhamos naquilo que pesa e é incompreensível. A morte não tem a última palavra, mas deve ser a antecâmara de uma vida que volta a encher-se de sentido e significado. O nosso talento e capacidade de resposta mostra como somos capazes de encontrar soluções para o que humanamente não queríamos que existisse.

O próprio Cristo não disfarça as suas feridas e convida Tomé a meter o dedo para que veja que, mesmo nas dores, um mundo novo pode acontecer. É o ressuscitado que deve animar-nos e mostrar que devemos ultrapassar aquilo que poderia complicar a vida. A Páscoa de Cristo mostra como a vulnerabilidade e a precariedade não têm a última palavra. Basta pegar no Evangelho e permitir que entre na essência da vida. Aqui está a força do cristão. Somos iguais a tantos outros nos sofrimentos e limitações. Mas a ressurreição não é um mero acontecimento histórico, de um passado que recordamos e celebramos. Ela é o anúncio de um tempo novo que ressoa e irrompe permanentemente. “Já começa a brotar, não vedes” (Isaias 43,19).

Com esta certeza somos conduzidos e não voltarmos as costas à dura e árdua realidade dos irmãos que connosco sofrem. O Ressuscitado está sempre a gritar-nos e a desinstalar-nos para acompanhar, curar e cuidar das feridas do povo que amamos. Teremos de o fazer sem medo e com coragem. Com a audácia e prodigalidade da multiplicação dos pães para quem tem fome do essencial; com a coragem, resolução e audácia do samaritano que se detém e aproxima, dando o que seria necessário para que a saúde regresse; com a alegria e a festa do pastor pela ovelha reencontrada depois de andar perdida pelos caminhos adversos da Humanidade; com o abraço reconciliador e reconfortante do pai do filho pródigo que oferece perdão a quem dele necessita; com a delicadeza, ternura e presença amorosa de Marta e Maria.

Hoje teremos de ser as mãos que consolam as tristezas, do coração que aumenta a esperança, dos olhos que oferecem vontade de encarar a vida de novo. Isto recorda-nos a ordenação dos diáconos. Como nunca, a Igreja deve tornar-se serva da Humanidade para ultrapassar todas as situações de precaridade e vulnerabilidade. Os diáconos de hoje orientam-se para o sacerdócio. Mas esta vocação de uma vida interpretada pelo serviço e para o serviço, nunca poderá ser perdida. A sua ordenação é, por esta razão, um apelo a que a nossa Igreja diocesana se deixe tocar pelas feridas do Homem moderno e acredite que, na força do ressuscitado, tudo pode encontrar um significado desde que coloquemos amor onde ele está a faltar.

Vamos acolher esta lição. Não queremos uma Igreja com diáconos só a servirem o altar. Olhamos para o altar da vida e apercebemo-nos de diversas realidades que nos obrigam a sair e a reconhecer que somos discípulos quando semeamos Páscoa no coração das pessoas e nos meandros da história humana. O sofrimento e a dor não nos atemorizam. Exigem muito. Como verdadeiros discípulos, não nos apavoramos nem intimidamos.

Que a Senhora do Sameiro nos coloque ao serviço de todos.

 

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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