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19 Jul 2020
Renovação do Presbitério
Homilia na Ordenação dos Presbíteros
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O tempo do confinamento rigoroso permitiu-me revisitar os meus conhecimentos sobre a Igreja primitiva de Jerusalém. Apercebi-me, de novo, da existência de dois modelos em confronto. Por um lado, o modelo de Jerusalém que se apoiava numa realidade monocultutal, fechado num judeismo rigoroso e que colocava o templo no centro, à volta do qual tudo deveria girar, conservando e defendendo as instituições de modo a dar realce à força da lei e, particularmente, às classes sacerdotais quase que como o centro que alicerçava a vida religiosa. 

Por outro lado e mais tarde, apareceu o chamado modelo de Antioquia marcado por uma acentuada tendência pluricultural, mais distante dos templos e abertos às casas que emergiam como verdadeiras igrejas domésticas. Aceitava-se uma ministerialidade dinâmica e plural aberta à responsabilidade crescente de muitas pessoas, nomeadamente mulheres, reconhecedoras do passado mas sempre aberta a novos desafios que ultrapassavam um simples tradicionalismo. Estes dois modelos confrontaram-se, mas a unidade exigiu uma aceitação concorde de todos os valores mas com a preferência por uma igreja mais próxima do povo. Era uma Igreja que caminhava com todos e mergulhava no concreto da vida.

Parece-me que hoje temos de regressar a este valor da proximidade manifestado pelo modelo de Antioquia. Nesta ordenação, quero deixar esta referência à Igreja que somos e queremos ser. Interrogamos muitas vezes sobre que Igreja queremos para o futuro. É a Igreja do futuro e o futuro da Igreja. Não a vejo centrada nos sacerdotes, mas impelindo os sacerdotes para o meio do povo que escutam, acolhem, orientam, acompanham. Tudo num grande respeito pela dignidade de todos e, particularmente, acreditando nos talentos sem nunca pretender impor. É uma Igreja que caminha com todos e, por isso, sinodal.

Trata-se de uma proximidade que os sacerdotes devem cultivar, partindo de uma relação próxima com Deus. Deus é a primeira referência e urge que mergulhemos no coração de Deus para acolher os ritmos que quer dar a todo o povo. Sem intimidade com o sobrenatural, nunca conseguiremos trabalhar a renovação do tecido eclesial. Esta proximidade terá de expressar-se numa vida de encontro fraterno com os sacerdotes. Falamos muito de fraternidade sacerdotal mas nem sempre testemunhamos uma verdadeira proximidade com todos os sacerdotes, criando espaço para o diálogo, a confiança, a partilha de vida e a comunhão. 

Destas duas proximidades terá de emergir uma terceira. O povo não pode ficar distante e o sacerdote não pode fechar-se no templo. Precisa de sair para se encontrar com todas as problemáticas humanas. Sentir o pulsar de um povo que se alegra e que sofre, que vive dignamente ou que sofre com carências do que é essencial. Identificar-se com o povo nunca para ficar em considerações teóricas interessantes. São os problemas reais que nos motivam. A Igreja nunca será ela mesma, para o hoje e para o futuro, se não ousar sujar as mãos e os pés, abraçando as vulnerabilidades do povo que ama. Este é um desafio para a Igreja como povo de Deus mas é sobretudo para os sacerdotes. Do seu testemunho e compromisso nascerá o rosto que mostrará uma sociedade que cada vez mais quer caminhar sem ela. Somos verdadeiramente sacerdotes se vivemos estas três proximidades: com Deus, com os sacerdotes, como o povo. Acrescentemos, ainda, uma quarta.Hoje teremos de nos aproximar da natureza para a reconhecer como dom de Deus a cuidar e a preservar. A ecologia precisa de fazer parte das nossas opções pastorais. Estamos a viver um ano dedicado à Laudato Si’. Deus ofereceu-nos todo a criação. Não o podemos esquecer.

Esta Igreja no mundo, próxima de Deus e de toda a Humanidade, tem como principal atenção o acolhimento da Palavra. Sem ela não consegue mostrar a sua identidade. Ela está no coração do mundo, na certeza de que outros semearão outras sementes contrárias à sua mensagem. Não podemos preocupar-nos com o que os outros semeiam. Olhamos para a nossa sementeira e acreditamos no valor que ela encerra. Deus passa pela  vida da Igreja como o semeador e devemos ir descortinando tanta coisa maravilhosa que acontece. Não interessa fixarmo-nos no negativo de tantas situações que, por vezes, nos querem fazer ver. 

Quanto tempo perdemos, reflectindo ou conversando, sobre coisas negativas que inevitavelmente surgem. Importa ter o cuidado de acolher a boa semente e saber que muitos outros também semeiam. Próximos do nosso povo, trabalhamos para que a Palavra chegue em autenticidade. Aqui é que investimos e gastamos as nossas energias. O nosso povo está ávido desta boa notícia que lhe dirigimos. O joio não deixará de fazer história. Não nos vamos cansar de o arrancar. Chegará a hora da verdade. Ele poderá, até, permear a Igreja. É inevitável. Sabemos que a Igreja será sempre santa mas que também convive com o pecado. Poderemos ter de reconhecer que existem muitas rugas que estão a desvirtuar o rosto. Só que ela continuará a ser bela com uma beleza que impressionará sempre.

Vamos neste dia de particular importância para a Arquidiocese, onde damos graças a Deus por estes quatro sacerdotes, e onde testemunhamos uma particular gratidão aos seus pais e familiares, assim como a todas as equipas formadoras que os acompanharam ao longo da caminhada de discernimento, optar pelo modelo da Igreja de Antioquia que nos coloca no meio do povo para testemunhar uma proximidade concreta e consistente. Não tenhamos medo de estar do lado do povo. Sejamos audazes na construção da Igreja através de um anúncio alegre e, se as rugas aparecerem, nunca deixemos de acreditar na beleza do seu rosto.

  

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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