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11 Fev 2015
A família, capital social a preservar
Discurso no encerramento das Jornadas da Família, a 07 de Fevereiro de 2015, às 18h, em Vila Nova de Famalicão.
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A FAMÍLIA, CAPITAL SOCIAL A PRESERVAR

DISCURSO NO ENCERRAMENTO DAS X JORNADAS DA FAMÍLIA

07 Fevereiro 2015 – Vila Nova de Famalicão – 18h

Com facilidade restringimos a nossa percepção da vida ao espectro circunscrito do nosso quotidiano e negligenciamos uma visão integral de todas as suas potencialidades. Deparamo-nos com diversas circunstâncias, opções, pessoas e amiúde somos incapazes de superar a linha do imediato. Estou certo que nem sempre esta circunstância é intencional e desejada. A força dos nossos inadiáveis compromissos diários a isso nos compele. E com o passar dos dias, dos anos, quebra-se a nossa resiliência a uma visão superficial da vida e das instituições sociais e culturais que a sustentam.

A família insere-se, porventura, nestas realidades pouco pensadas e que são dadas por garantidas. O Papa Francisco, nas Filipinas, considerava-a como o que “há de mais nobre e belo da nossa cultura” e que, infelizmente, está a ser alvo de “ataques insidiosos” com programas contrários ao que consideramos de “mais verdadeiro e sagrado.” Perante esta circunstância, dizia o Santo Padre que é imperativo proteger a família. O que significa, neste sentido, proteger a família?

Antes de mais, significa perceber que a sociedade é uma realidade em permanente mutação e que diferentes valores – importados de culturas reais (por via da mobilidade) ou de culturas artificiais (como são os produtos televisivos de ficção) – atingem directamente as suas instituições, como é a familiar, e transformam-nas. Se alguns influxos são aceitáveis, e até desejáveis, outros, pelo contrário, são de evitar. Falo, em particular, das culturas artificiais que produzem realidades paralelas, irreais, e desrespeitosas do milenar património antropológico que nos sustenta. Defender a família significa, neste sentido, redescobrir o seu átomo inicial, o seu valor e benefício que ela representa na formação da identidade de um povo.

Diversos sociólogos, como é o caso de Ulrich Beck ou Zygmunt Bauman, falam das famílias e de outras relações de proximidade como categorias zombie. O zombie é um morto-vivo, privado de consciência, vontade e personalidade. Deambula pelas ruas com comportamentos estranhos e instintivos. Com a falência do projecto das instituições sólidas, como é o caso da política, da educação, da justiça ou da família, as pessoas estão a aprender a negociar as suas relações em base de critérios de igualdade. Assim compreendemos, por exemplo, o desrespeito pelo papel dos avós na identidade familiar ou as relações cada vez mais simétricas entre os pais e filhos. Quando desaparece uma saudável assimetria de papéis, por mais paradoxal que possa parecer, nascem relações ditatoriais e destrutivas. Javier Urra, psicólogo clínico, sintetiza esta realidade com a expressão o pequeno ditador.

Ainda no pensamento do Papa Francisco, proteger a família significa, então, apostar num sólido projecto educativo. Quem não recorda os momentos familiares ao redor de uma lareira ou nas conversas ocasionais e não reconhece as marcas indeléveis que imprimiram em nós? Este espaço e estas relações afectivas, que só a família consegue proporcionar, são cruciais para uma autêntica educação individual e para a construção de capital social. É ao “redor da lareira” que nasce e se fortalece a sociedade moderna. É ao “redor da lareira” que a sociedade encontra o seu ponto de equilíbrio e aprende a gramática dos afectos. O que se passa aqui enriquece ou empobrece a sociedade e demonstra como a família deve assumir-se como detentora de um grande capital, de interesse para os indivíduos que a compõem, e de grandes repercussões na sociedade. A título de exemplo, quero interpelar a vossa reflexão sobre a importância de algumas realidade que são semeadas no seio familiar e produzem frutos nos meandros da sociedade.

- Num mundo de hipocrisia e meias verdades, alguns grupos querem passar a ideia de que a verdade é uma utopia ou um valor negociável. Ela é, na verdade, o alicerce das relações sociais. Outrora os pais aceitavam muitas aventuras incorrectas, mas jamais a falta de verdade. Uma vez reconhecida, tudo se perdoava. Não necessitará a sociedade deste valor e de acabar com as engenharias complexas da mentira continuada?

- A iniciação ao mundo do trabalho era feita, desde cedo, em casa. Com o zelo que algumas instâncias têm, talvez as famílias de outrora fossem acusadas de exploração infantil. Mas aqui refiro-me a outra realidade, isto é, à família como lugar de iniciação. Para dominar um ofício não bastam as competência técnicas. São necessário outras competências: espírito de sacrifício, respeito, responsabilidade, entusiasmo. A família poderá ser, neste sentido, o espaço onde se aprende a humanizar o mundo do trabalho.

- Desde criança, ainda que sem plena consciência, sentia-se vontade de tomar parte numa cidadania activa, quer na dimensão civil quer na religiosa. Os últimos estudos revelam, felizmente, que tem aumentado o número de cidadãos comprometidos com o voluntariado, ainda que pontual. Mas tantos outros, infelizmente, participam na sociedade motivados por interesses pessoais ou de grupos partidários. É neste aspecto particular que a família pode fazer germinar novas mentalidade ao promover o gosto pelo bem-comum. Isso implica gastar tempo, dinheiro, qualidades; implica que cada se gaste pelo bem de todos.

- Não posso esquecer ainda o exercício da partilha, resultado da generosidade de quem sabe que a felicidade não “mora” no seu quintal. Geralmente quem dava aos pobres eram as crianças e as ofertas religiosas passavam pelas mãos dos mais pequenos. Não teria a sociedade um rosto diferente se a partilha e a generosidade fossem democratizadas e acontecessem com a alegria de quem nada perde? Não será urgente intensificar este valor?

- A consistência da identidade de uma sociedade mede-se pela capacidade que ela tem de olhar as suas raízes e de preservar a sua cultura. O psiquiatra Daniel Sampaio, à semelhança de outros autores, afirmou recentemente que “estamos a construir uma sociedade sem memória” e que nos centramos demasiado no momento presente, ao estilo do carpe diem. Muitos sentem, por isso, falta dos mestres da sabedoria e dos guardiães da memória. Mas, ao invés de ansiarmos por figuras individuais, não poderão ser as famílias – elas próprias – fiéis depositárias da sabedoria humana e da memória ininterrupta? Por outras palavras, apostar na família como agente de transmissão é apostar no futuro da sociedade.

Importa, por isso, não cair no pecado de omissão e dar espaço a um relativismo que pretende nivelar tudo pela mesma bitola. “Desde pequenino se torce o pepino”, afirma um ditado popular. Os pais necessitam de acreditar nesta tarefa educativa. Transmitir valores, cristãos ou simplesmente humanistas, é, sem margem para dúvidas, uma competência da família.

- Não é possível abordar esta temática sem falar da questão da vida. Todos reconhecem a importância da natalidade. Que medidas assumimos? Os abortos atingem números muito expressivos e 30% dos abortos legais em Portugal são reincidentes. O número de nascimentos desce assustadoramente. Em 2004 foram 110.000 e em 2013 apenas 80.000, isto é, menos 28%. O adiamento da maternidade também é revelador de uma mentalidade (em 1990 a idade média das mães no momento do parto do primeiro filho era de 24 anos; em 2012 já estávamos nos 29 anos). Outro pormenor a não esquecer é que as crianças nascidas fora do casamento foram 14,7% e em 2012 já eram 45,6%. “Entre os anos de 2007 e 2013 o número de casamentos (civis) desceu dos 45.329 para os 34.423, enquanto que o número de divórcios atingiu o seu cume com 27.556 em 2010, tendo baixado para 25.380 em 2013”. (Sabendo que os casais não são os mesmos, importa reflectir sobre outro dado: em 2013 os divórcios atingiram 74% relativamente aos casamentos).

Falei da verdade do trabalho, da cidadania activa, da partilha e generosidade, da transmissão de valores e da questão da vida. Exemplos que provam como a família é um verdadeiro capital social.

Penso que estes últimos dados não nos afastam da temática desta Jornada. O futuro do país passa pelo contributo que a família poderá dar. Podemos falar de medidas políticas a favor da natalidade e sentir orgulho por estarmos num concelho amigo da família. Não é suficiente. A sociedade precisa de assumir compromissos concretos que revitalizem a família a partir de dentro e de protegê-la como algo de essencial, como uma verdadeira garantia de um futuro humanizado.

Neste domínio, a proposta cristã é de uma validade inegável e, em linha de princípios, dignifica a família. Mas a Igreja sabe, ao mesmo tempo, que necessita de reequacionar determinadas linhas da sua proposta. É isso o que está neste momento a fazer com o Sínodo sobre a Família.

Terminaria com um pensamento do Papa Francisco, escrito na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, e assim regresso ao tema desta Jornada, A família: Capital Social. “Uma criança que aprende, em família, a ouvir os outros, a falar de modo respeitoso, expressando o seu ponto de vista sem negar o dos outros, será um construtor de diálogo e reconciliação na sociedade”.

Como Igreja temos um longo caminho a percorrer. É exigente? Certamente. Mas o que é essencial para a sociedade tem de ser realizado, ainda que com sacrifício.

+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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