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13 Jun 2020
Mensagem por ocasião da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus
Carta dirigida ao clero.
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Caríssimo Sacerdote, 

Há alguns anos que a Solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus foi motivo para organizar uma Jornada de Santificação Sacerdotal. Como tal, nesse dia deve acontecer um momento de reflexão e de oração sobre a vida e o ministério pastoral dos sacerdotes. É uma tarefa confiada a todo o Povo de Deus mas que os sacerdotes devem assumir como tarefa que lhes é dirigida. Nem sempre a vida nos permite momentos de encontro com a nossa identidade. Ter um dia com esta finalidade deveria significar que queremos que ele nos traga compromissos concretos que delineamos para um confronto pessoal com a nossa identidade.

São dois os princípios constitutivos do nosso ser sacerdote. Em primeiro lugar, impõe-se a relação com Cristo que exige que nunca nos desliguemos d’Ele e que, concretamente, não descuremos uma relação de intimidade a viver quotidianamente. O coração do sacerdote deve ser verdadeiramente “consagrado” a Cristo, o que depois deve levar a uma relação pessoal com Ele e a consequente conformidade com os Seus sentimentos e motivações. Em segundo lugar, na consagração acontece um vínculo com o povo, de modo que nunca nos poderemos isolar da comunidade para nos entrincheiramos no individualismo. Somos para o povo e a nossa alegria deverá estar sempre na doação da vida para que muitos se encontrem com Cristo.

Estes dois princípios orientaram a missão de Jesus e devem também orientar a do sacerdote. Os Evangelhos mostram como a oração e a solidariedade activa se entrelaçam e se exigem mutuamente. A fadiga do ministério e as exigências da caridade estão sempre interligadas e permeadas por situações de silêncio e de oração. Trata-se de uma verdadeira simbiose que apresenta um modo muito original de interpretar a vida. Também o sacerdote deverá, permanentemente, convencer-se de que a sua missão será fecunda e alegre se a vida decorrer entre o Senhor, a quem se consagrou, e o Povo a quem foi enviado. Perante a pressão das exigências pastorais não é fácil manter este equilíbrio. A caridade pastoral sem uma profunda vida interior, sem oração pessoal e comunitária, é trabalho árduo, cansativo e desmotivador.

Não se trata de dois princípios. Um implica o outro. Só os separamos mentalmente. Coincidem na sua interpretação: a oração está possuída pelo ministério e este tem de ser activado pela intimidade com Deus. Em síntese, poderemos afirmar que o sucesso e a realização na vida sacerdotal depende da relação íntima com Deus. A fecundidade pessoal e pastoral só acontece através de uma amizade profunda, interior e vital com Cristo. “O padre que já não reza com fidelidade e que descura os elementos estruturantes da sua relação de intimidade com o Senhor acumula um «deficit» perigoso, que pode gerar sentimento de vazio, perceção de frustração e insatisfação, dificuldade na gestão da solidão, das necessidades e dos afetos, até ao risco de exposição em amizades e ligações «externas» que, naquele ponto, poderiam fazer desmoronar um edifício humano-espiritual já marcado por diversas fendas” (Papa Francisco).

É esta reflexão que urge realizar neste dia. Nem sempre temos tempo para o fazer. Se a Igreja nos propõe esta oportunidade não podemos deixar que ela se torne graça para nosso bem pessoal e para a alegria do nosso ministério. A Congregação para o Clero elaborou, para este dia, uma mensagem com o título de “Sacerdotes com o Coração de Cristo”.

Fixando-se no Coração de Jesus, propõe-se à nossa reflexão a necessidade de uma vida com coração: um coração agradecido, misericordioso, compassivo, vigilante, corajoso. Cada uma destas palavras encerra um programa a rezar e a rever em exame de consciência. Aproximamo-nos de Cristo e deixemos que molde as nossas atitudes e opções segundo estes parâmetros. Como consequência natural, verificaremos que a pastoral será diferente e que estaremos a dar um contributo precioso à tarefa de renovar a Arquidiocese. A partir desta intimidade seremos capazes de dar um rosto diferente à Igreja que amamos. 

Se a oração e reflexão devem acontecer todos os anos, neste dia poderemos e deveremos compreender a nossa consagração e missão colocando-a neste tempo que estamos a viver. Fomos perturbados por uma pandemia. Esperamos, ansiosamente, que ela seja vencida. Sabemos, porém, que ainda nos acompanhará durante mais tempo. Ela está a marcar a nossa vida pessoal e ministerial. As nossas agendas não estão tão sobrecarregadas como no tempo normal. Muita coisa parou e ficamos mais livres. Daí que lhe peça licença para recordar o retiro que está marcado de 6 a 10 de Julho. Sabemos que deveremos ter todas as cautelas. Não deixaremos de o fazer contando com a responsabilidade de cada um. Importa, porém, que veja se não deverá participar. Aí poderemos completar a reflexão que lhe sugeri.  Podemos parar, libertando-nos do trabalho habitual, para reassumirmos a pastoral com outro ardor e alegria. Quero contar, e desde já agradeço, com a sua presença. Irá enriquecer-se e enriquecerá o presbitério.

Quero terminar com um pensamento do Papa Francisco dirigido aos sacerdotes de Roma para este dia.

“A fé permite-nos uma imaginação realista e criativa, capaz de abandonar a lógica da repetição, da substituição ou da conservação; convida-nos a instaurar um tempo sempre novo: o tempo do Senhor. Se uma presença invisível, silenciosa, expansiva e viral nos colocou em crise e nos baralhou, deixemos que esta outra Presença discreta, respeitosa e não invasiva nos chame de novo e nos ensine a não ter medo de enfrentar a realidade. Se uma presença não palpável foi capaz de desconcentrar e inverter as prioridades e as agendas globais aparentemente imóveis que tanto sufocam e devastam as nossas comunidades e a nossa irmã terra, não tenhamos medo de que seja a presença do Ressuscitado a traçar o nosso percurso, a abrir horizontes e a nos dar a coragem de viver este momento histórico e singular”.

Não posso terminar esta mensagem sem lhe manifestar a mais profunda gratidão pelo seu sacerdócio. Todos o acolhemos como um dom e queremos fazer dele um dom ao povo de Deus. Pelo modo como o temos feito, aceite um obrigado pessoal.

Também eu procuro rever o meu exercício episcopal neste dia em que pensamos na santificação como um dever. Só sou bispo com presbitério. Não em termos de mera funcionalidade administrativa de quem precisa dos padres para trabalhar. Vejo-o ontologicamente. Por isso, aproveito este dia para lhe assegurar a mais profunda amizade. Juntos seremos o que Deus pretende.

Que este dia nos convença, a cada um e a todo o presbitério, que deve ser o Ressuscitado a traçar o percurso da Igreja nestes momentos de perplexidade. Não podemos perder esta graça. Quais discípulos de Emaús deixemos que dê encanto aos nossos dias.

Uma saudação muito amiga e a minha gratidão pela vivência do vosso sacerdócio. Sejamos todos felizes no amor de Cristo.


† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

 

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