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Colaborador | 3 Jun 2010
Corpo de Deus
Homilia do Sr. D. Manuel Linda na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
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A liturgia de hoje rememora aquela outra Quinta-feira, a Santa, em que o Senhor Jesus, “tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até ao fim”, até à última gota do Seu Sangue redentor. Não, porém, sem antes instituir uma forma sacramental de continuar presente, mesmo depois da Sua morte e Ressurreição que se aproximavam, junto dos seus amigos. Junto de nós, que acreditamos e apreciamos este milagre do Seu amor solícito, misericordioso e mesmo familiar.

 

É a celebração deste dom de amor, total e definitivo, que, hoje, aqui nos juntou. Fazemo-lo, agora, neste tempo de alegria pascal e de primavera em plenitude, com uma alegria mais festiva do que no dia de Quinta-feira Santa, pois, nessa altura, não nos conseguíamos abstrair da sombra da Cruz e do espectáculo do Calvário.

 

Para a compreensão profunda deste mistério, percorramos as vias das leituras desta Missa. A primeira apresenta-nos a figura de Melquisedec, rei e sacerdote de Salém, provavelmente o nome antigo da cidade de Jerusalém, a oferecer um sacrifício de pão e vinho ao Deus Altíssimo como acção de graças pelo facto de Abraão haver libertado o seu povo –o início do Povo da Aliança- das mãos dos reis predadores circundantes. Neste facto, a Igreja sempre viu a prefiguração de Jesus Cristo que, no Cenáculo de Jerusalém, consubstancia no pão e no vinho o Seu próprio Corpo e Sangue, ao outro dia oferecido como “resgate da multidão” no vizinho Calvário.

 

Na segunda leitura, S. Paulo recorda-nos a excelência da Eucaristia. Celebrá-la, é proclamar convictamente a morte e a ressurreição do Senhor na esperança do seu retorno glorioso. E insiste nas circunstâncias dramáticas em que Cristo a instituiu: “na véspera da Sua Paixão” ou “na noite em que ia ser entregue”. É este dado que nos obriga à extrema dignidade da sua celebração: nas disposições interiores e exteriores, nos espaços e alfaias litúrgicas, na música e na proclamação dos textos sagrados, etc. Dizia Paulo VI: “A Eucaristia, mistério sacratíssimo, requer uma atmosfera de dignidade e de gravidade. Simplicidade, sem dúvida; mas leviandade, nunca”.

 

O Evangelho, cujo acontecimento relatado também prefigura a Eucaristia, faz a transição deste mistério para a vida e condição do cristão no mundo. A cena passa-se no deserto, lugar simbólico de todas as carências e fomes da humanidade. Perante elas, é impossível a indiferença. A compaixão e a misericórdia, filhas da caridade, obrigam a que se intervenha e se faça algo. E o resultado é sempre grandioso: com amor, do pouco se faz muito. A ponto de sobejarem cestos e cestos de comida, testemunho contínuo do fruto perene de um amor que se doa.

 

Para nós, homens, e para nossa salvação”, que podemos retirar, ainda, desta Solenidade do Corpo de Deus de 2010? Para este tempo de profundíssima crise económica, social e espiritual –crise de civilização e de cultura que anuncia o fim de um tempo e requer o início de uma nova fase na vida da humanidade- ressalto o que o cristão deve oferecer para que o mundo supere esta penúria de humanismo e bom senso.

 

A Eucaristia que celebramos obriga-nos a «repartir» e a «dar-nos». O modelo, obviamente, é Jesus Cristo que fez da sua existência uma vida-para-os-outros. E que, no Evangelho desta Missa, nos mandava: “Dai-lhes vós de comer”. É que o pão e o vinho do altar são também sinais e símbolos do pão e do vinho novo, da alegria e do contentamento, que hão chegar à mesa da humanidade. Sob a forma de alimento e sob a forma de todas aquelas ajudas que mantêm a vida e lhe dão sentido.

 

De facto, a prática da comunhão de bens e a ajuda aos necessitados e aos débeis sempre se interligou com a Eucaristia. Referindo-se à atitude descomprometida de alguns ricos que se recusavam a contribuir para a refeição ou ágape fraterno que, nos primeiros tempos da vida eclesial se costumava tomar, em conjunto, no contexto da celebração eucarística e que, pelo contrário, se aproveitavam do que os pobres levavam, São Cipriano garantia que, aqueles, embora estando presentes, não participavam da Eucaristia. E invectivava-os: “Crês que celebras o sacrifício do Senhor, tu que não te importas de contribuir para a caixa das esmolas, que vens à celebração dominical de mãos vazias e que, pelo contrário, até pretendes tomar parte na oferenda que trouxe o pobre?”. E Santo Ireneu definia a Eucaristia como a “oblação de homens livres”, tal o valor concedido ao ofertório em favor dos pobres.

 

Este espírito de dádiva e partilha tomou forma quer naquela caridade personalizada e escondida – a tal em que a mão esquerda não sabe o que faz a direita- quer nas inúmeras e sempre inovadoras instituições de solidariedade social, hoje tão menosprezadas e dificultadas na sua actuação pelo poder político. É necessário que os cristãos, seja a nível de organização paroquial, seja –o que seria preferível- a outros níveis de associação, continuem a prestar assistência e a inovar com essas obras. Mas é ainda mais necessário que inculquem os valores humanistas do Evangelho na sociedade de massas e na actuação política, sectores altamente deficitários.

 

Era para isso que nos chamava a atenção o Papa Bento XVI, a quem estamos imensamente gratos pela visita apostólica que recentemente nos fez. Em Fátima, no encontro com as Organizações da Pastoral Social, depois de ressaltar o imenso valor das obras sócio-caritativas da Igreja, afirmava: “As iniciativas que visam tutelar os valores essenciais e primários da vida, desde a sua concepção, e da família fundada no matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher, ajudam a responder a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum. Tais iniciativas constituem, juntamente com muitas outras formas de compromisso, elementos essenciais para a construção da civilização do amor”.

 

Caros cristãos, o Corpo e o Sangue do Senhor que amorosamente nos são oferecidos são para ser amorosamente recebidos. Mas recebemo-los não só para nosso alimento, mas também para sustento de um mundo que deles bem carece. Mesmo que o não saiba. Que nós lhos não neguemos.«

 

3 de Junho de 2010


† Manuel Linda, Bispo Auxiliar de Braga

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