Arquidiocese de Braga -

16 julho 2023

Padres felizes na alegria do Evangelho

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Homilia na Ordenação dos Presbíteros

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1. A pastoral da semente

Uma semente! O semeador saiu a semear. As sementes têm uma potência brutal dentro delas, tanto que, de um grão minúsculo lançado à terra, sai o milagre de uma haste que cresce, se robustece, se transforma em tronco que, por seu turno, produz rebentos, folhas, flores e frutos. Multiplica-se em vida nova. Também é assim connosco: quando temos muita riqueza por dentro, alegria bondade, generosidade…  podemos provocar milagres de vida à nossa volta!

A Palavra de Deus é eficaz como a chuva e a neve, que fecundam a terra e produzem o pão (1ª leitura), e como a semente lançada à terra pelo semeador e dá fruto proporcional (Evangelho). A sementeira não é inútil. A única possibilidade do semeador é a de semear por toda a parte, cheio de respeito e de paciência.

A Palavra de Deus não deveria ser sempre eficaz? Na narrativa evangélica atesta-se que em três partes do terreno a semente não dá nenhum fruto, mas de uma parte dá fruto em abundância. «Porque a semente tem coração generoso: cada grão tem coração de espiga! (...). A esperança; sempre a esperança. A esperança do semeador ouve e semeia!...» (J. Aguiar).

O semeador parece desperdiçar tempo e cansaço. Todavia, o semeador, se quer ser imitador do amor de Deus, tem de semear por todo o lado. Só quem tem esta disponibilidade e generosidade é um verdadeiro semeador da alegria do Evangelho. O terreno bom é descrito por quatro verbos: ouvir, compreender, dar fruto e produzir, correspondentes a quatro etapas que permitem à Palavra cumprir inteiramente o seu processo.

Os quatro tipos de terra da parábola do semeador continuam a ser situações autocríticas da Igreja comunidade que vive neste lugar. A Palavra de Deus é a boa semente colocada no coração de cada pessoa. Este complexo processo na Igreja comunidade tem de ser uma passagem do olhar crítico ao olhar crístico. 

O trabalho do agricultor é o de semear e ter a paciência de esperar, que implica até um não fazer enquanto a semente morre e renasce, cresce e se desenvolve até à colheita. Para que haja fecundidade da semente é preciso a fidelidade da Esperança. Ainda que a olhos humanos tantos trabalhos pareçam inúteis, por mais que na aparência sejam insucessos, Jesus está cheio de confiança, porque a hora de Deus chega sempre e com ela chegam os frutos abundantes que superam todo o sonho e medida. 

Sair a semear! Eis o enorme desafio – a pastoral da semente! O Papa Francisco encoraja a todos para sermos uma Igreja «em saída» para dar a todos a notícia Boa do Evangelho de Jesus crucificado e ressuscitado. Mas, atenção, só podemos sair com credibilidade se temos a notícia na totalidade do coração, não suceda dizer com as palavras e desdizer com a vida quotidiana. A maior distância que existe é aquela vai da cabeça ao coração.

 

2. Palavra feliz de vida viva

O mistério do ministério que ides receber pela imposição das minhas mãos e do Presbitério não serve para uma simples administração dos bens sacramentais ou eclesiásticos; pelo contrário, tem de ser uma atitude permanente de missão evangelizadora. 

Na sacramentalidade do ministério, são significativas as palavras da Escritura que escolhestes em ordem à centralidade da Palavra de Deus na vossa vida: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus» (Rm 12,2), Bruno;«Temos, porém, este tesouro em vasos de barro» (2 Cor 4,7), Rafael; «Guardava todas estas palavras, meditando-as no seu coração» (Lc 2, 19), Vítor; «Enquanto em mim houver um sopro de vida» (Job 27,3), Tiago.

O Presbiterado no Presbitério não é uma organização, mas um organismo vivo pela alegria e pela autenticidade da fraternidade em Cristo Jesus. A felicidade não está isenta de problemas, mas estes podem ser oportunidades para uma elaboração nova.

Hoje, «o caminho formativo dos sacerdotes, desde os anos do Seminário, é descrito, na Ratio fundamentalis, partindo de quatro características distintivas da formação: ela é única, integral, comunitária e missionária. A formação dos sacerdotes é a continuação de um único “caminho de discipulado”, que se inicia com o Batismo, se aperfeiçoa com os demais sacramentos da iniciação cristã, para ser depois acolhido como centro da própria vida; obviamente a formação inicial no Seminário distingue-se da formação permanente quanto ao tempo, modo e finalidades específicas, mas constitui com essa uma única formação progressiva – aquela que se realiza na vida do discípulo sacerdote, o qual, permanecendo sempre na escola do Mestre, não cessa de buscar a configuração com Ele». 

Caros irmãos e amigos Presbíteros, em Cristo Cabeça, Pastor, Esposo e Servo da Igreja, o Presbitério é lugar de comunhão e crescimento; tem origem sacramental, refletindo-se e prolongando-se no âmbito do exercício do ministério presbiteral do mistério ao ministério. O Presbitério já existe antes dos Presbíteros.

Sabemos que não são os Presbíteros que fazem o Presbitério; é o Presbitério que faz os Presbíteros. Estejamos atentos, sendo persistentes na nossa formação permanente e alegres no testemunho feliz do Evangelho da vocação, para que a função não anule o perfume da unção.

Caros Bruno, Rafael, Tiago e Vítor: a amizade sacerdotal é um grande tesouro. Sede irmãos e amigos uns dos outros e experimentai todos os dias a fraternidade sacramental no Presbitério que se concretiza na relação pessoal com o Bispo, com os Presbíteros, consagrados e leigos, na vida pastoral da Paróquia e da Unidade Pastoral, no Arciprestado, na catequese, na liturgia, na caridade e em tantos outros lugares da nossa Igreja arquidiocesana. 

Amai o povo que vos é confiado. Não vos deixeis levar pelo poder, pelo dinheiro, pela ganância e pela imagem. Livrai-vos dos interesses mesquinhos, da vaidade e da arrogância. Rezai a vossa vida e o vosso ministério em Cristo e na Eucaristia alimentai-a diariamente, e tende muito em conta o sacramento da Reconciliação, a direção/acompanhamento espiritual, a oração pessoal e comunitária, a Liturgia das Horas, a Lectio Divina e a piedade popular. 

Vivei a vida boa do Evangelho e evitai o cansaço desnecessário, o desânimo, a intriga eclesiástica. Testemunhai a sobriedade de vida, a pobreza evangélica voluntária, o celibato gratuito, a obediência pastoral na escuta e na realização da santidade da Palavra de Deus. Acreditai na confiança e na comunhão! Sede homens da comunhão!

Escutai as pessoas. Cuidai de todos, especialmente dos pobres, de todos os tipos de pobreza na infância, na adolescência, na juventude, nos adultos e nos mais idosos. A Igreja não pode desapontar os pobres!

A vossa metodologia pastoral seja de mansidão, de respeito, de paciência, de misericórdia e de humildade. Sedes alegres e coerentes na vida e no ministério. Fazei da Igreja a casa da alegria e da esperança. A pastoral da ação e da semente dê sempre lugar à pastoral da relação e da fecundidade espiritual.

 

3. Uma vida sem alegria?

O jovem Frei Bernardo de Vasconcelos, patrono dos jovens da nossa Arquidiocese para a tão próxima Jornada Mundial da Juventude, Lisboa 2023, interrogou-se: «o ideal cristão em que consiste?» E respondeu com a própria vida:«Ser um só com Cristo».

Em verdade: «para que serve uma vida sem alegria?» (Santa Hildegard de Bingen). Ser Presbítero não é só ministerialidade, é, antes de tudo, sacramentalidade, que é o rasgo mais específico da ministerialidade. Ser presbítero é seguir Jesus Cristo e não só as coisas de Jesus Cristo. O Evangelho é o caminho, porque o caminho é Jesus Cristo. Nos evangelhos, Jesus não pára, está sempre a caminho.

Procurai tempo para ver e identificar os carismas e suscitar e chamar os ministérios na Paróquia, na Unidade Presbiteral e Pastoral e no Arciprestado, qual Igreja comunidade de comunidades.

Vós sereis ministros da Palavra, dos Sacramentos e da Caridade pastoral. A isso fostes iniciados no leitorado, no acolitado e no diaconado. Agora no Presbiterado sois configurados a Cristo, cabeça, pastor, esposo e servo da Igreja. «Não existe Eucaristia sem sacerdócio» (J. Paulo II).

Todavia, sabei que todos os fiéis recebem um carisma e todos são chamados a um serviço na comunidade de comunidades. Estai atentos, descobri-os, acompanhai-os, fazei-os frutificar e festejai-os na Liturgia e na vida. Fostes escolhidos e chamados e agora chamai! Que o azeite perfumado que recebereis depois da imposição das mãos e da oração seja sinal eloquente do novo paradigma da pastoral no terreno pelo ministério da Esperança nesta nossa Arquidiocese de Braga!

Queremos ser uma Igreja continuadamente em atitude sinodal samaritana, na oração, na formação, na comunhão, na participação e na missão, cada vez mais atenta a todas as pessoas e aos sinais dos tempos. Por isso, na conclusão da celebração teremos o significativo rito de envio da Ana e do Hugo, um casal missionário da Paróquia de Cabeçudos, Arciprestado de Famalicão, para a nossa querida Comunidade de Ócua, Diocese de Pemba.

São Paulo VI anotava: «Antes de convertermos o mundo, e precisamente para o convertermos, é necessário que nos acerquemos e lhe falemos». A divino-humana aventura é a de levar Jesus Cristo a todos e trazer todos a Jesus Cristo, a fonte perene da feliz alegria evangelizadora.

 

+ José Manuel Cordeiro