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24 Jul 2023
Mansidão e paciência do Bispo
Homilia D. José Cordeiro - Ordenação episcopal de D. Roberto, 23 julho 2023
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  © DACS

1. Mansidão de Deus

A mansidão de Deus na sua relação com a humanidade, testemunhada pela primeira leitura e apresentada pela narrativa do Evangelho na parábola do joio, é constitutiva do agir de Deus e da Igreja. Por isso, a linguagem sapiencial das três comparações: o joio, a mostarda e o fermento, com a explicação do joio, querem mostrar que Deus cuida da humanidade.

A presença do joio não é novidade e não é sinal de fracasso. A parábola apresenta-nos uma estranha política de tolerância. A paciente espera é própria daqueles que sabem cultivar e que não têm pressa de separar o bem do mal.

Contudo, a Igreja não é uma comunidade de perfeitos e de eleitos, mas é uma comunidade onde nos podemos salvar e ser chamados à santidade. Somos uma comunidade de pecadores amados e perdoados, que em cada dia recomeçam. 

Deus não se distrai. O Reino de Deus é uma realidade dinâmica, onde o mal já foi vencido na sua raiz, ainda que não nos seus efeitos. Também a comparação com o grão de mostarda mostra que o que é pequeno pode crescer e dar algo de grande, desmentindo a ideia que as coisas grandes só proveem do que é grande. Igualmente a comparação com o fermento na massa deixa espaço ao dinamismo da Palavra que cresce, segundo os tempos e os processos que lhe são próprios.

O grande Arcebispo de Milão, Carlo M. Martini escreveu com a sua peculiar sabedoria do coração: «naturalmente que esta familiaridade com a Escritura faz parte do mistério da oração cristã: deve ser, por isso, preparada com a adoração da soberania de Deus e com a entrega confiante à ação do Espírito, o único que sabe como convém rezar. Trata-se, portanto, de um exercício não simplesmente intelectual. É uma oração que compromete a mente e o coração».

2. A máxima paciência evangelizadora

Caríssimo D. Roberto: agora no rito da ordenação, quando te for ungida a cabeça e te forem dadas as insígnias,vou dizer ao entregar-te o livro dos Evangelhos: «Recebe o Evangelho, e anuncia a palavra de Deus com toda a paciência e doutrina». 

O Bispo é confiado à Palavra e não a Palavra ao Bispo, é Paulo quem o diz na despedida que em Mileto fez aos presbíteros-bispos (anciãos) da Igreja de Éfeso: «e agora, confio-vos a Deus e à Palavra da sua graça que tem o poder de construir o edifício e de vos conceder parte na herança com todos os santificados» (At 20, 32).Santo Agostinho chegou a comentar: o «Evangelho é a boca de Cristo». 

O mesmo se confirma nos preliminares do Pontifical Romano da ordenação do Bispo: «Entre as principais funções dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho. Os Bispos são, com efeito, os arautos da fé, que conduzem a Cristo novos discípulos, e os doutores autênticos, que pregam ao povo a si confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida. Do mesmo modo que pelo ministério da palavra comunicam a força de Deus para a salvação dos que creem (cf. Rom 1, 16), assim também pelos sacramentos santificam os fiéis: são eles que regulam a administração do Batismo, são eles os ministros originários da Confirmação, os dispensadores das sagradas Ordens, os moderadores da disciplina penitencial. Investidos da plenitude do sacramento da Ordem, são “os administradores da graça do supremo sacerdócio”, principalmente na Eucaristia, que eles mesmos oferecem ou providenciam para que seja oferecida. Toda a legítima celebração da Eucaristia é dirigida por eles. Em qualquer comunidade congregada em volta do altar, sob o ministério sagrado do Bispo manifesta-se o símbolo da caridade e unidade do Corpo místico».

Vivemos uma mudança de época, comos nos adverte o Papa Francisco, todavia, às vezes preferimos viver do passado e não encarar profeticamente o futuro. É verdade que «o pó da história pode ter o seu fascínio, mas a limpidez do Evangelho tem um fascínio maior»(B. Maggioni).

A missão, e não a conservação, é um mistério e a maior das urgências pastorais, a requerer muita coragem e muita fé, acompanhadas da mansidão, da paciência e da humildade. Como repensar o Evangelho nesta cultura? «E aí está a nova metodologia, que afinal é a primeira metodologia da missão: a partir de Cristo, com Cristo, como Cristo» (CEP, 2010). Ele é quem o diz: «tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas vidas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11, 29-30).

 

3. Como o grão de mostarda e como o fermento

Antes do II Concílio do Vaticano, a missão de evangelizar estava reservada a duas categorias de cristãos: a hierarquia e os religiosos. Juntava-se-lhes um ou outro leigo médico missionário. A massa dos cristãos preocupava-se geralmente pelo “abastecimento”, pelo suporte económico aos missionários que volta e meia vinham em busca de ajuda, não tanto para a evangelização, pelo qual pouco nos comoveriam, mas sim para os seus pobres, pelos quais era despertado um sentimento humano de solidariedade. Na verdade, «o único objeto da Escritura é a caridade» (B. Pascal).

A Igreja não coincide com o Reino, pelo menos neste mundo! É como o grão de mostrada e como o fermento! O Espírito Santo age também fora dos confins da Igreja! Mas ela é “sinal” visível e eficaz, isto é, que provoca efeitos sobre terceiros; assim, é convocada a provocar, a alargar o círculo dos discípulos... que à sua volta “saem a pregar” por toda a parte, enquanto o Senhor age juntamente com eles e confirma a Palavra por meio dos sinais que a acompanham.  A Igreja é sinal visível e eficaz, de um Deus que nela e através dela, como presença invisível, age e continua a agir entre os seres humanos... diz-se “sacramento” ou “mistério” de Deus.

É muito oportuno relembrar as sábias palavras de Bartolomeu dos Mártires, o nosso arcebispo santo, quanto ao ministério episcopal: «A adversidade não abate um cristão, mas comunica-lhe mais ardor; o zelo sacerdotal revela-se mais corajoso nas dificuldades, mais forte nas contrariedades, mais ousado em tudo, visto que, como a Igreja, deve fundar-se sobre a rocha de Cristo, que nenhuma tempestade poderá abalar. As uvas, as azeitonas não dão vinho nem azeite, senão depois de pisadas; e as espigas só dão pão, depois de múltiplas triturações; do mesmo modo, os homens só possuem espiritualidade sólida, depois de muitas aflições».

Hoje comemoramos o III Dia Mundial dos Avós e dos Idosos: «colocando no centro a alegria transbordante dum renovado encontro entre jovens e idosos. A vós, jovens, que estais a preparar-vos para partir para Lisboa ou que vivereis a Jornada Mundial da Juventude na própria localidade, quero dizer: antes de sair para a viagem, ide visitar os vossos avós, fazei uma visita a um idoso sozinho. A sua oração proteger-vos-á e levareis no coração a bênção daquele encontro. A vós, idosos, peço para acompanhardes com a oração os jovens que estão prestes a celebrar a JMJ. Aqueles jovens são a resposta de Deus aos vossos pedidos, o fruto daquilo que semeastes, o sinal de que Deus não abandona o seu povo, mas sempre o rejuvenesce com a criatividade do Espírito Santo» (Papa Francisco). A Jornada Mundial da Juventude envolve todas as idades, porque é uma peregrinação evangelizadora com os jovens, contudo a Igreja só será jovem se os jovens forem Igreja (cf. S. João Paulo II).

Ser mistério para uma vida em Cristo: por Cristo, com Cristo e em Cristo é o desafio da vida do Bispo, servidor paciente e manso do Evangelho. O Senhor, Pastor dos pastores e único Bispo te confirme na mansidão, na paciência e na humildade como barro na Sua mão (cf. Jr 18, 6).

D. Roberto, na proximidade bem próxima a experienciares em cada dia na paternidade, na fraternidade, na caridade, e na amizade, doa-te a todos quantos Deus confia ao teu cuidado pastoral: o Presbitério, os Diáconos, as Pessoas consagradas, os seminaristas, os ministérios laicais, as famílias, os jovens e os mais velhos, os pobres, os doentes, os migrantes, os reclusos, os refugiados e quem mais precisa da compaixão, da ternura e da misericórdia. 

 

Caríssimos irmãos e irmãs,

na alegria muito grata pelo dom da Graça recebido num membro do Presbitério bracarense para o episcopado, agora Bispo titular de Vita e Auxiliar do Porto, no serviço da colegialidade fraterna com D. Manuel Linda e os Bispos Auxiliares, continuemos juntos a peregrinar na Esperança na Província Eclesiástica e na Conferência Episcopal.

Santa Maria de Braga, Senhora da Assunção e de todos os nomes belos, S. José, S. Pedro de Rates e os Santos Arcebispos de Braga, intercedam por nós neste caminho sinodal samaritano.

 

 

+ José Manuel Cordeiro

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