Arquidiocese de Braga -

30 janeiro 2026

Jardim da Esperança - Acolher a Fecundidade na Fragilidade

Fotografia DR

Mensagem de Quaresma 2026

Estimados irmãos e irmãs da Arquidiocese de Braga,

 

No Advento, desafiámos cada um a dizer “sim” com criatividade. Guardámos no coração o saco de sementes, símbolos da Palavra que Deus quis plantar em nós. Agora, damos início ao tempo da Quaresma. É o momento de abrir o solo, de mexer na terra, cuidar da sementeira.

Muitas vezes, olhamos para a vida e só vemos desertos: sentimo-nos exaustos, a fé já não entusiasma, a família e o trabalho pesam, há feridas abertas e perguntas sem resposta, o futuro assusta... Nós próprios, enquanto pastores, sentimos o peso destes desertos. Por isso, não vos escrevemos esta mensagem de fora do caminho, mas caminhando convosco.

Sabemos que o caminho cristão não é um exercício de perfeição; é um caminho de Páscoa. 

Uma fé que não muda a vida concreta acaba por se tornar apenas num hábito religioso, que já não liberta nem salva. 

 

1. O terreno da interioridade

Às vezes a terra está seca, cheia de pedras e espinhos (cf. Mt 13,1-23). Mas é precisamente aí, na nossa humanidade real e não idealizada, que a semente de Deus cai e quer germinar. A nossa fragilidade não é um obstáculo para Deus; é, sim, o encontro da nossa fragilidade com a Sua Graça que nos faz santos (cf. GE, 34). Deus não espera que sejamos fortes. Espera apenas que nos deixemos cuidar por Ele. Viver em Cristo é permitir que a Sua Graça entre em nós e transforme a terra barrenta e seca que somos em jardim florido, habitado por aquela esperança que o deserto não consegue impedir de nascer. O deserto floresce na alegria da esperança.

 

2. Onde a fragilidade floresce

Propomos, por isso, um foco: o Sacramento da Reconciliação. Apelamos às nossas comunidades e aos nossos presbíteros para que preparem a celebração deste sacramento com especial solicitude. A Reconciliação não é um tribunal de sombras, mas o cuidado do jardineiro que cuida a terra para que floresça. Confessar a ternura de um Deus, que não é senão amor, diante das nossas fragilidades é um ato libertador que fecunda a vida. Desejamos, por isso, que a celebração da penitência seja um acontecimento de profundo encontro e beleza.

Espaço – Que as nossas igrejas e confessionários sejam preparados com singular dignidade: uma luz que convide à paz, a Palavra de Deus em destaque, um arranjo floral que evoque a esperança, a cruz que nos recorda que somos amados.

Acolhimento – Quando chega, que o fiel se sinta esperado e amado. Entregue-se um folheto com um exame de consciência encarnado, que vá ao encontro das fragilidades pessoais, familiares, comunitárias.... No final, porque não entregar uma pequena frase bíblica que confirme o perdão recebido?

Celebração – Faça-se o melhor possível uma celebração penitencial, como prevista na fórmula ritual A: um só penitente com confissão e absolvição individual e na fórmula ritual B: comunitária com confissão e absolvição individual. Ajudemos os cristãos a escutar a Palavra de Deus e a iluminarem a sua vida a partir dela. E na confissão individual cuide-se a linguagem e a postura diante do penitente. Semeemos esperança onde as pessoas apenas veem deserto. Ajudemos cada penitente a fazer caminho de Páscoa. 

Santo Agostinho ensinava: "Deus ama cada um de nós como se não houvesse mais ninguém a quem amar". É este amor que queremos que cada fiel bracarense sinta ao aproximar-se da Reconciliação.

 

3. Participar criativa e alegremente

Se o Advento foi o tempo de dizer "sim", a Quaresma é o tempo de trabalhar para que esse "sim" não morra. Ou seja, é tempo para ser "ativo e criativo" para levar Jesus a todos e todos a Jesus. Isto passa por ações pessoais e comunitárias concretas: o jejum (menos ecrã, menos ruído, menos agressividade); oração (5 minutos reais por dia, não ideais); e esmola (um gesto concreto, uma pessoa, uma causa). Estas atitudes quaresmais ajudam-nos a perceber que não existe apenas o “meu deserto”, “as minhas dificuldades” ...

Consequentemente, sugerimos que este ano o Contributo Penitencial tenha estas finalidades: 

- 40% do valor será destinado ao Fundo Partilhar com Esperança, serviço de ação social instituído pela Arquidiocese de Braga para ajudar todos os que são atingidos por qualquer forma de pobreza, exclusão social ou emergência;

- 30% destinado a apoio às obras de recuperação/requalificação, desenvolvidas pela Cáritas Arquidiocesana, de um edifício que servirá como casa de acolhimento de mulheres e crianças/jovens vítimas de violência doméstica; 

- 30% destinado à Arquidiocese de Rabat, em Marrocos, para desenvolvimento de programas de apoio psicológico e psiquiátrico às pessoas que sofrem de perturbações de ansiedade, depressão e stress pós-traumático como consequência dos terramotos que afetaram aquela região em 2023. 

 

4. Rumo à Páscoa Florida 

O deserto é passagem; o jardim pascal é a meta: “o deserto e a terra árida alegrar-se-ão; a estepe exultará e florescerá como o narciso; florescerá e exultará, gritando de alegria (Is 35,1). Esta é a nossa esperança: a fragilidade trabalhada pela graça produz flores de ressurreição. 

Concluímos com as palavras do Prefácio VI da Quaresma: “ao homem, náufrago do pecado e da morte, pelo sacramento da reconciliação abristes em Cristo, morto e ressuscitado, o porto da misericórdia e da paz. Pelo poder do vosso Espírito, estabelecestes para a Igreja, santa e também pecadora, uma segunda tábua de salvação depois do Batismo e continuamente a renovais para a reunir no banquete do vosso amor”.

Caminhemos juntos. Não como quem já chegou, mas como quem se deixa transformar. Que a nossa fragilidade, entregue ao Senhor, se torne no terreno mais fecundo da nossa Arquidiocese. A Páscoa já estará a florir em nós!

 

D. José Cordeiro, Arcebispo Metropolita

D. Delfim Gomes, Bispo Auxiliar

D. Nélio Pita, Bispo Auxiliar