Arquidiocese de Braga -
17 março 2026
Quaresma – um caminho de proximidade com Deus, entre nós e com a natureza
CNJP - Comissão Nacional Justiça e Paz
Reflexão quaresmal de 2026 da Comissão Nacional Justiça e Paz a partir da mensagem do Papa Leão XIV
Eis-nos de novo na Quaresma.
Na sua mensagem o Papa Leão XIV oferece-nos três palavras: Escutar, Jejuar e Juntos.
A Escuta remete-nos para a Palavra. Mas esta não se esgota em si mesma, não é estanque e trespassa as vinte e quatro horas do dia, ‘torna-se carne’, incarna-se respondendo de mangas arregaçadas diante do sofrimento e da injustiça.
A escuta da Palavra leva-nos à escuta das necessidades de quem sofre, dos mais necessitados, dos que vivem nas periferias e misérias incontáveis, leva-nos a experienciar a proximidade feita dor libertadora.
O Papa, na sua mensagem cita a sua Exortação apostólica Dilexi te recordando que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja».
Escutar interpela-nos mesmo e tem consequências?
Escutar a Palavra implica ação. «Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática» (Cf. Lc 11,28).
Ainda estamos a viver os dramas que assolaram algumas regiões do nosso país. Vivemos mil e um dramas. Mas onde chegou a nossa prática?
Ou limitámo-nos a ficar pelos pios lamentos, pelos comentários acusatórios à responsabilidade do clima, do estado e outras entidades?
É certo que não falta a mobilização diante de eventos extremos. E diante da miséria escondida?
Qual a nossa escuta diante das dores abafadas dos imigrantes, das formas de violência gratuita, da exploração laboral e das múltiplas escravaturas, das palavras ofensivas de teor racista, e não só?
A escuta da Palavra é um rio de amor concreto que nos leva a desaguar no mar da misericórdia e da proximidade que «chora com quem chora» e «pensai sempre em pra4car o bem diante de todos os homens» (Rm 12,15;17).
Não podemos ficar indiferentes e surdos diante da pobreza, e as tragédias climáticas que nos assolaram carregam gritos clamando respostas a quem ficou sem telhado, sem casa, a quem perdeu o sustento porque os locais de trabalho ficaram destruídos, a quem viu as águas invadirem a sua dignidade e bens.
A escuta é companheira de viagem do diálogo transformativo que escasseia nas nossas casas, no mundo laboral e entre as estruturas do poder. É urgente uma consciência que saiba discernir o circunstancial do essencial.
Também as intempéries e catástrofes naturais requerem a nossa proximidade para colhermos o seu grito e o «novo céu e a nova terra» que o Apocalipse nos fala será um amanhã feito caminho no tempo presente.
A escuta da realidade é uma voz que nos fala, é a voz de Deus que emerge das realidades mais profundas.
A segunda palavra do Papa leão é o Jejum, uma das práticas mais associadas à Quaresma.
Do que falamos quando falamos de jejum e abstinência? É apenas a ligeireza costumeira circunstancial de hábitos culturais?
O Jejum fica-se por um ou outro aspeto da nossa vida que cobre e justifica outros desmandos? Ou atinge, como diz o Papa Leão, e «é útil para discernir e ordenar os “apetites”» e tem também consequências, mantendo-nos vigilantes diante da fome e da sede de justiça? Ou passamos ao lado, encolhemos os ombros desde que não nos incomode?
Somos cumpridores escrupulosos da letra, os novos fariseus, que quando interrogados “onde está o teu irmão?” respondemos afoitos “o que tenho a ver com isso?”.
Certamente que o jejum nos deve levar a perfumar a cabeça para que a humildade no coração nos ajude a viver no meio do mundo. Por isso o jejum e a abstinência podem incarnar-se em cada um naquilo que lhe é mais comum, nos julgamentos fáceis, nas palavras sem freios e, por vezes, ofensivas, despejadas nas redes sociais, nas calúnias de quem está ausente, no preto e no branco das nossas apreciações conforme as cores políticas, clubísticas ou paroquiais; lado a lado com outros, podemos abrir caminhos de esperança e de paz.
O terceiro pilar da mensagem do Papa é “Juntos”, é a dimensão comunitária. É na par4lha
comunitária que nos estimulamos reciprocamente na caminhada quaresmal, num es4lo de vida sóbrio, na partilha de novas formas de viver a Palavra e a transmitir, do enorme desafio atual que é a reconciliação – entre nós e sacramental –, é acreditar que as palavras de Jesus ditas a Pedro, Tiago e João “Levantai-vos, não tenhais medo”, continuam válidas para nós.
Juntos é o desafio, a experiência do caminho sinodal que nos impele a cultivarmos um outro
modo de estar, uma outra proximidade feita de comunhão que, pelo amor recíproco, gera a
presença de Deus entre nós e nos conduz à Páscoa.
Depois das tragédias climáticas que vivemos entre nós, percebemos o ódio transformado em guerras para onde quer que olhemos. Não bastava a guerra na Ucrânia, a guerra civil em
Myanmar, os conflitos em Moçambique e noutros países de África, a tragédia da Terra Santa
envolvendo Israel e a Faixa de Gaza, espoleta a Guerra do Irão envolvendo, direta ou
indiretamente, cada vez mais países.
Precisamos de um ‘nós’ capaz de vencer a guerra, de no nosso coração passarmos uma
declaração de inutilidade da guerra e no meio da escuridão bélica oferecemos uma luzerna para a paz?
A nossa Quaresma vive ensopada na fé de que a proximidade e a solidariedade são mais fortes do que as catástrofes e as guerras?
Os propósitos pessoais valem, certamente, mas devem entrar na harmonia sinfónica de uma Igreja que não exclui ninguém, onde todos têm lugar e nos faz trautear melodias novas deste Povo de Deus que caminha até à Páscoa.
Eis-nos de novo na Quaresma, assim começamos esta reflexão. O “de novo” não pretende
significar outra vez, repetição, mas uma oportunidade nova, diferente do passado seja ele qual for. É que este caminho quaresmal – feito de escuta, jejum e juntos –, deve ter o sabor da graça, que passa pelo arrependimento, para vivermos com cada próximo uma aurora de paz e fraternidade.
Lisboa, março de 2026
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