Arquidiocese de Braga -

18 maio 2026

João Paiva: “unidade na diversidade que permita transformação”

Fotografia Rede Sinodal

Rede Sinodal

O professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto considera que a “sinodalidade tem um potencial de se descentrar da clericalização e de se aproximar de uma Igreja horizontal e em saída”. A Rede Sinodal em Portugal apresenta aqui o episódio 14

“No coração da esperança” é o nome da iniciativa em podcast da Rede Sinodal em Portugal. Apresentamos aqui o episódio numero 14 de uma parceria inovadora de comunicação que faz caminhar em conjunto Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo.

Neste episódio o entrevistado é João Paiva, professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e assíduo participante em atividades eclesiais de reflexão, também nos órgãos de comunicação social. Publicamos aqui as suas respostas às questões da Rede Sinodal em Portugal:

Acha que na implementação das conclusões do Sínodo pode vir a ser mais importante conservar a unidade do que ativar a mudança na Igreja?

A pergunta é muito boa e toca na ferida sobre um aspeto tensional, eu diria que mais do que na Igreja, na vida das pessoas. E eu até acho que é uma conversa pré-sinodal, mas onde, obviamente, a sinodalidade mergulha como oportunidade, mas também como ameaça. E, na minha opinião, satirizando um pouco a palavra unidade, a “unidadezinha” que pode cair no uniformismo e no medo de mudar, torna-se um perigo à ação da sinodalidade. Eu compreendo que nesta mudança, não é uma mudança qualquer. Não é uma mudança com os critérios típicos, sociopolíticos apenas, pois nós desejamos ser conduzidos pelo Espírito. Mas na realidade, há um imperativo que é até evangélico de garantir Cristo mudando e transformando. E, portanto, nessa tensão, eu sou daqueles que tenho mais medo do uniformismo que mantém tudo na mesma do que nalguma mudança que possa ferir aqui e ali, mas que na realidade transforme, não comprometendo a unidade, mas tomando uma unidade na diversidade que permita transformação e a mudança.

O relatório do grupo de estudo n.º 4 do Sínodo faz uma revisão da "Ratio Fundamentalis Sacerdotalis" em perspetiva sinodal e propõe uma maior participação de mulheres na formação nos seminários. Num ambiente desde sempre masculino, trata-se de uma mudança radical?

É uma mudança que vai às raízes e que é precisa, nesse sentido, radical, porque não estamos habituados a isso. Ela é precisa porque a nossa cultura, onde Jesus se quer revelar e manifestar, é uma cultura que, em certo sentido, está à frente da cultura eclesial no confronto com o Evangelho, na minha opinião. E falta, de facto, “tonus”, liderança e protagonismo feminino na Igreja Católica Romana. E um dos expedientes de o fazer é, inequivocamente, convocar as mulheres para participação ativa na formação do clero, inicial e até na formação contínua do clero. Eu permito-me avançar com um dos expedientes que é menos polémico. Eu tenho uma posição crítica, muito radical, sobre, vamos dizer assim, o subdesenvolvimento em que estamos na Igreja no que diz respeito à liderança feminina. Mas tenho uma sugestão que tem enquadramento canónico e poderia ser suficientemente revolucionária ou radical, no bom sentido do termo, que é formar, divulgar e estimular nos seminários e não só, o acompanhamento espiritual feito por leigos bem formados, que incluiria também, obviamente, mulheres. E, na realidade, como boa experiência que vem da cultura, por exemplo, no domínio do acompanhamento psicológico ou de outras atividades em que na nossa cultura as mulheres dão muitas e boas cartas, seria inspirador, e favoreceria a Igreja, estimular o acompanhamento espiritual, inclusive de jovens candidatos a sacerdote, e de sacerdotes, por mulheres. Isso iria de certeza ampliar a inteligência emocional e outro tipo de competências que dariam melhores pastores da Igreja Católica.

Uma Igreja sinodal está menos centrada no presbítero e mais na comunidade?

Sim, radicalmente. Eu respondo afirmativamente, e isso... Ou deveria estar. Portanto, eu estou a colocar isto no plano da idealidade, não é? A Igreja sinodal que vive neste dinamismo, por um lado novo, por um lado antigo no melhor dos sentidos, porque radica no Evangelho, no exercício da escuta e do caminho em comum. Na realidade, quem é o centro? É o povo que caminha, que é escutado. É verdade que depois há deliberações, digamos assim, e decisões que se vertem sobre alguma hierarquia, e isso a mim não me parece mal. Tomando confiança de que essas decisões não têm uma génese clerical, mas têm precisamente a raiz da escuta feita, amadurecida, discernida, e que leva a uma eleição e a uma decisão de mudança. Portanto, a minha resposta é que a sinodalidade tem um potencial de se descentrar, no pior sentido dos termos, da clericalização e de se aproximar de uma Igreja horizontal e em saída.

João Paiva participou numa formação sinodal dedicada ao clero da diocese do Porto desenvolvendo o tema “Território, Missão e Comunidade: Itinerários para uma nova reconfiguração pastoral”. Foi nesse âmbito que deu uma entrevista ao podcast “No coração da Esperança” da Rede Sinodal em Portugal numa parceria com Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, Folha do Domingo, Rede Mundial de Oração do Papa e 7Margens.