Arquidiocese de Braga -
10 junho 2026
Anjos da Paz
Homilia do Arcebispo de Braga na Missa anual para o Dia de Portugal, Catedral Basílica do Sagrado Coração de Jesus, Arquidiocese de Newark, EUA
- Ao cuidado de um Anjo
Neste Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a Igreja celebra a memória do Santo Anjo da Guarda. Esta comemoração remonta a tempos muito antigos da história de Portugal e passou a ser uma festa autorizada em 1504, pelo papa Leão X. As manifestações do Anjo aos três pastorinhos de Fátima, em 1916, deram nova força a esta celebração, pelo que o Papa Pio XII aprovou a inclusão desta memória no Calendário litúrgico português.
Julgo que todos nós portugueses quando eramos ainda crianças aprendemos, com as nossas mães ou com as nossas avós, a oração ao Anjo da Guarda, daí que este seja o dia em que no Santuário de Fátima se realiza a peregrinação das crianças, que junta anualmente naquele lugar de fé milhares de pessoas, sobretudo crianças. Ao rezarmos a oração ao Anjo da Guarda aprendemos a confiar a nossa vida a Deus, pela mediação da proteção dos anjos. Atentemos, porém, que isto não significa uma proteção mágica que nos isente de problemas e dificuldades, porque a providência divina não é isso. Deus ama-nos e protege-nos acompanhando-nos em todas as circunstâncias da vida, quer nas alegrias, quer nas tristezas e problemas. Temos fé e esperança em Deus; acreditamos que Ele está sempre connosco e que o mal nunca terá sobre nós a última palavra, porque Deus é Senhor da vida e da história, querendo o bem dos seus filhos amados.
- Um anjo dentro do coração
A palavra portuguesa anjo deriva do latim angelus e do grego angelós e designa sobretudo uma função: um anjo é um enviado, um mensageiro. Em toda a Sagrada Escritura encontramos relatos em que os anjos atuam mensageiros de Deus, sendo enviados para comunicar a vontade de Deus; lembremos por exemplo a Anunciação do anjo Gabriel a Maria, ou os anjos que anunciam a ressurreição de Cristo no dia de Páscoa às mulheres que foram ao sepulcro. No evangelho hoje proclamado os anjos são enviados aos pastores para proclamar o nascimento do Messias, para glória de Deus e paz para a humanidade por Ele amada (Cf. Lc 2,14). Na escuridão da noite surge um imenso clarão de luz: Deus está connosco, vive connosco.
Como os anjos, somos convidados a nos tornarmos mensageiros de Deus no mundo de hoje. Sempre que nos dispomos a ir ao encontro dos nossos irmãos e irmãs, em particular os que passam por dificuldades, nós estamos a ser anjos, mensageiros do amor misericordioso de Deus. E o mundo complexo onde vivemos precisa cada vez mais de pessoas angélicas: pessoas pacíficas, misericordiosas e acolhedoras. Precisa de discípulos de Cristo convictos e que se disponham a caminhar juntos, seguindo os passos de Cristo, Aquele que lavou os pés aos discípulos e nos convida a imitar esse gesto de serviço.
Recordemos, entre muitas outras pessoas, Madre Teresa de Calcutá que pelas ruas da Índia foi um autêntico anjo de Deus a socorrer os mais pobres entre os pobres. “Quando era criança acreditava em ter um anjo da guarda ao meu lado. Agora creio tê-lo dentro” (Erri De Luca).
- A luz da liberdade e da paz
Nas leituras de hoje ouvimos ainda que das “mãos do Anjo subiu à presença de Deus o fumo dos aromas com as orações dos santos” (Ap 8,4). Os anjos integram a Igreja triunfante, ou seja, o corpo daqueles que já contemplam a Deus no céu. Mas nós, peregrinos ainda na Terra, não estamos separados dessa Igreja. A Igreja ensina a comunhão dos santos, isto é, nós estamos unidos aos anjos e santos do céu, e com eles rezamos a Deus. Esta comunhão vive-se de forma mais profunda sempre que celebramos a Sagrada Liturgia, pois nas celebrações litúrgicas, e de um modo particular na Eucaristia, nós estamos a participar no louvor eterno que os anjos e santos devotam a Deus. Quando celebramos a Liturgia nós estamos já a antecipar o céu, mas às vezes nem nos damos conta dessa grande graça.
Neste tempo assinalado por guerras e conflitos, o Papa Leão XIV tem colocado no centro o apelo à paz entre os povos. Logo na primeira saudação dirigiu a todos as palavras “a paz esteja convosco” e apelou a “uma paz desarmada e desarmante” que vem de Deus, insistindo na urgência do diálogo e da responsabilidade comum na construção da paz.
Que as nossas orações de hoje subam a presença de Deus levadas pelas mãos do Anjo de Portugal. Que o Senhor abençoe e guarde esta comunidade portuguesa, faça brilhar sobre vós a sua face e se compadeça de vós. Que o Senhor volte para vós o seu rosto e vos dê a paz (Cf. Nm 6,24-26).
+ José Manuel Cordeiro, Arcebispo Metropolita de Braga
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