Arquidiocese de Braga -

12 junho 2026

"Tu és um povo consagrado ao Senhor"

Fotografia Pe. Vítor Araújo

Homilia de D. Nélio Pita no encontro anual do clero da arquidiocese de Braga - Solenidade do Coração De Jesus

Caro Sr. D. Delfim,

Caríssimos senhores padres, diáconos, seminaristas

Irmãos e irmãs

Considero uma feliz iniciativa este encontro anual do clero da arquidiocese de Braga. Precisamos de estar juntos, não apenas por motivos de trabalho. Precisamos de estar juntos como irmãos que partilham o pão da alegria, irmãos que sonham com um futuro comum, que oram e esperam juntos, que se interajudam como companheiros de viagem e se apoiam nas dificuldades. A solenidade do Sagrado Coração de Jesus, o dia em que a Igreja é chamada a orar pela santificação dos sacerdotes, é uma bela oportunidade para este encontro.

Ao meditar nas leituras agora proclamadas, fixei-me particularmente no texto do Deuteronómio, na afirmação «Tu és um povo consagrado ao Senhor». Nesta breve reflexão, associo-a ao conceito de sentido de pertença: pertença a Deus, pertença a um grupo, pertença a um povo.

1. Pertença a Deus. Através de Moisés, Deus lembra que Israel «é um povo consagrado ao Senhor», isto é, foi escolhido e separado das restantes nações por livre iniciativa de Deus. Israel é eleito não por ser numeroso ou por causa das suas qualidades. A origem da eleição é o amor gratuito de Deus e a fidelidade às promessas feitas aos antepassados. O Senhor prendeu-se, vinculou-se, a Israel apenas por amor. Por isso, Deus exorta-o a reconhecer a sua condição de consagrado. O verbo reconhecer encerra um programa de vida. Reconhecer significa refazer um caminho deixado para trás; retomar um propósito antigo; recuperar um ideal já esquecido; recomeçar e reaprender o que já é considerado adquirido.

Ontem como hoje, o Senhor diz a cada um de nós: Tu pertences a um povo consagrado ao Senhor. É simplesmente extraordinário viver animado por esta convicção: pertencemos a Deus. Não fomos escolhidos por causa das nossas virtudes ou méritos, nem por razões de ordem circunstancial, mas porque fomos amados, verdadeiramente amados por Deus. E, enquanto consagrados a Deus, é-nos lançado um desafio permanente: somos chamados a reconhecer que Deus, na pessoa de Jesus, o Mestre de coração manso e humilde, do jugo suave e da carga leve, está na origem do que somos e fazemos, não apenas como batizados, mas também como consagrados, isto é, ungidos pelo sacramento da ordem. Como recorda o Papa Leão XIV: «Toda a vocação na Igreja nasce do encontro pessoal com Cristo (…). A fidelidade à vocação, especialmente em tempos de provação e tentação, fortalece-se quando não nos esquecemos daquela voz, quando somos capazes de recordar com paixão o som da voz do Senhor que nos ama, escolhe e chama.» (Fidelidade que gera futuro, 5).

Reconhecer. Quando perdemos a memória que nos vincula a Deus — é por Deus e para Deus que estamos nesta missão — até as mais pequenas questões se transformam em grandes problemas e qualquer atividade se torna um pesado fardo. Por vezes, dou-me conta de que, na origem do meu cansaço, não está tanto o excesso de trabalho, mas a dispersão, o sentido de não pertença e de não consagração a Deus.

Reconhecer que Deus está na origem é permanecer no seu amor e alimentar essa relação amorosa através de gestos concretos, como a oração diária e a participação anual no retiro espiritual. Sem estes momentos de intimidade com o Senhor, o Ministro Ordenado corre o sério risco de mergulhar numa crise de uma vida sem sentido. Como justamente referiu o falecido Papa Francisco, «muitas crises sacerdotais têm origem precisamente numa escassa vida de oração, numa falta de intimidade com o Senhor, numa redução da vida espiritual a mera prática religiosa». Assim, mesmo que tenha muitos anos de vida sacerdotal e tenha gerido muitas obras sociais, sem reconhecer Deus como causa e fim, o Ministro Ordenado desliza para um perfil de mero executor de operações e rotinas. Age como um funcionário sem alma. Mas nós não somos «nem funcionários nem heróis solitários, mas filhos amados, discípulos humildes e estimados» (Papa Leão XIV).

 

2. Pertença a um grupo, ao presbitério. Na primeira leitura, há uma clara alusão a um povo que partilha a mesma fé, a mesma lei e está animado pela mesma esperança. No NT, as relações entre os membros não são motivadas pelas apetências ou simpatias pessoais, mas pelo amor que vem de Deus. Reconhecendo-se amado por Deus, o discípulo é chamado a amar o seu semelhante, mesmo aquele que é diferente e estranho: «amemo-nos uns aos outros», recomenda-nos S. João. Não se trata de uma recomendação de somenos importância, mas do mandamento primordial do agir do discípulo deixado por Aquele que, por amor, deu a vida por nós. E, como sabemos, o verdadeiro amor está associado à atitude de despojamento para acolher o outro na sua alteridade, mesmo quando nos incomoda. Amar exige abrir os braços e deixar-se crucificar para que o outro seja reconhecido e valorizado como membro do meu grupo, como meu irmão, como semelhança de Deus. Ao acolher o outro na sua singularidade, estou a favorecer o sentido de pertença. E, como referem alguns autores, o sentimento de pertença está associado a mecanismos de proteção e de participação. As redes de suporte são fortalecidas e o sujeito encontra um espaço afetivo seguro no qual se expressa livremente. Não é uma tarefa fácil. Podemos dizer que a dinâmica sinodal favorece o sentido de pertença, através da livre expressão de ideias e sentimentos. Por isso, como grupo, é necessário continuar a aprofundar os temas, mesmo aqueles que são delicados, aqueles que são terra fértil de dissonâncias, como o atual debate sobre o estatuto económico do clero ou questões associadas a problemáticas pastorais ou que Igreja queremos ser. Que as nossas naturais divergências não sejam motivo de divisão. Evitemos o escândalo da divisão. O efeito das quezílias internas e da murmuração é nefasto para a credibilidade da Igreja. O Papa Leão XIV, no documento já citado, lembra-nos que a «fraternidade presbiteral deve ser considerada como um elemento constitutivo da identidade dos ministros, não como um simples ideal ou slogan, mas como um ponto a ser trabalhado com renovado vigor» (FGF, 14). Neste ponto, temos certamente todos um caminho a percorrer.

3. Finalmente, pertença ao povo. Fomos consagrados, ungidos, para servir o povo de Deus. Esta é a razão de ser da nossa eleição. Não estamos acima de ninguém, mas ao lado, como pastores que acompanham e apontam caminhos. O nosso tempo, os nossos dons, pertencem ao povo. Para além das celebrações, muitas vezes, os fiéis reclamam a nossa presença como uma bênção nas suas vidas. Precisam de nós e rezam por nós.

Somos consagrados para o serviço de um povo, com as suas particularidades — nem sempre é fácil — mas façamo-lo por amor. A este propósito, releio constantemente uma passagem do compungente romance «A Ressurreição», de Lev Tolstói, em que o protagonista diz a certa altura: «Os objetos podem ser tratados sem amor: pode-se corar árvores, fazer tijolos, forjar ferro sem amor; mas não se pode tratar as pessoas sem amor, da mesma forma que não se pode tratar das abelhas sem cuidado. (…) Se não sentires amor pelas pessoas, fica quieto, trata de ti, dos teus haveres, do que quiseres, mas não de outras pessoas» (p. Ed. Presença, p. 409).

Que a contemplação do Coração de Jesus nos motive a amar sem medida. Que Maria, a mulher da Esperança Vica e do Amor Perfeito, interceda por nós.

+Nélio P. Pita
12 de junho de 2026