Arquidiocese de Braga -

25 agosto 2026

Fé e tradição resistem ao mau tempo na festa de S. Bartolomeu do Mar

Fotografia DM

DM - Francisco de Assis

A fé, a tradição, a cultura, a história e os costumes de um povo mostraram, ontem, mais uma vez, a sua força e enraizamento nas localidades, resistindo a tudo, incluindo as intempéries. De facto, ontem, apesar do vento e da chuva forte e persistente, que se abateu sobre grande parte do País, a festa de São Bartolomeu do Mar, em Esposende, fez-se, ainda que com naturais limitações e dificuldades.

E pode dizer-se que não faltou nada do que é habitual. Os banhos santos, a eucaristia, que pela primeira vez teve “honras” de bispo, neste caso D. Delfim Gomes, Bispo Auxiliar de Braga; as galinhas pretas a serem adquiridas ou levadas de casa, para passarem debaixo do andor de São Bartolomeu, pagamento de promessas, os doces e produtos locais da freguesia, entre outros usos e costumes locais.

Devido à chuva inesperada e muito rara, pelo menos durante a manhã, o negócio dos guarda-chuvas e capas de proteção foi o mais bem-sucedido.

Segundo o pároco, padre António Sílvio Couto, este ano estava prevista uma cerimónia sobre os banhos santos, mas devido ao mau tempo, ficou sem efeito.

Família Águia veio de Caminha apesar do mau tempo

Este ano, a quantidade de gente à procura do banho santo não foi muita. Ainda assim, sob a “tutela” de Júlio Oliveira, o único banheiro no local, passaram cerca de duas dezenas de crianças, adolescentes e até jovens. «Já dei banho a 14 banhistas», dizia Júlio Oliveira, ao Diário do Minho, orgulhoso por ajudar a manter a tradição. «Já faço isso há anos. Gosto de ajudar a manter uma tradição que é nossa e é bonita. Vem gente de vários lugares», garantiu.

As palavras de Júlio Oliveira encontram suporte numa família que se deslocou de Caminha, para voltar a cumprir a tradição.

Reunidos debaixo de um guarda-chuva, a mãe, Ana Helena Águia, Gustavo Águia e Leonor Águia, estavam amparados por um carro, depois do banho.

A mãe justificou a deslocação a São Bartolomeu e garantiu que os resultados sentem-se no filho Gustavo. «Eu tenho vindo com ele todos os anos e de ano para ano noto melhorias nele. E continuo com a fé de vir cá. E este ano não foi diferente. E não desisti, mesmo com a chuva e com o vento. Não conseguimos ir à missa porque estávamos todos molhados», lamentou, em declarações ao Diário do Minho.

O Gustavo confirmou que tem cada vez menos medo e nem achou a água fria. «O banho estava bom. A água não estava muito fria. Só a chuva é que atrapalhou um pouco, mas estou bem».

A mãe Ana confirmou que a filha Leonor tomou banhos santos até perder os medos todos. «Também já vim com ela. Já vim com ela e ela perdeu logo o medo desde pequenininha».

Alguns jovens da freguesia quiseram participar no banho santo, por vontade própria. «Quando éramos pequenos, traziam-nos. Agora estamos aqui porque queremos, porque é uma tradição da freguesia», sustentaram, com leveza e satisfação.

D. Delfim destacou a testemunha de fé «ardente» e missionário autêntico que foi S. Bartolomeu

A missa solene em honra de São Bartolomeu do Mar foi presidida, pela primeira vez, por um bispo, neste caso D. Delfim, Bispo Auxiliar de Braga, como fez questão de sublinhar o pároco, padre Sílvio Couto.

Na sua homilia, o prelado começou por revelar que no Evangelho encontramos o Apóstolo São Bartolomeu com o nome de Natanael, apresentado a Jesus por Filipe. Ele que ficou conhecido por ter feito a pergunta preconceituosa: «De Nazaré pode vir alguma coisa boa?»

Para D. Delfim, esse foi o primeiro traço de Bartolomeu. «Um homem verdadeiro, que não disfarça o que pensa, não é cínico, mas é exigente. Não se deixa levar por entusiasmos fáceis, quer ver, quer confirmar, quer encontrar a verdade», disse, frisando que é precisamente este homem, com as suas dúvidas e reservas, que Jesus chama para ser Apóstolo.

E recebeu de Cristo um grande elogio. «Eis um verdadeiro israelita em quem não há fingimento», disse, realçando que «Deus não chama pessoas perfeitas. Chama pessoas reais. Jesus não escolhe apenas aqueles que já têm uma fé madura e sem perguntas».

Para o Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Braga, ao revelar a identidade de Jesus, o Filho de Deus, o Rei de Israel», Bartolomeu faz uma «profissão de fé luminosa, imediata, quase explosiva». Afinal, aquele que começou por perguntar se de Nazaré podia vir alguma coisa boa, termina por confessar a identidade de Jesus. «Torna-se testemunha ardente. Isto é o caminho da fé, caríssimos irmãos. Isto é o caminho da nossa fé. Passar da pergunta ao encontro».

D. Delfim recordou que, segundo a tradição, Bartolomeu levou o Evangelho até terras longínquas. Enfrentou perseguições e deu a vida por Cristo. «A autenticidade tornou-se fidelidade até ao fim».

A propósito do convite de Filipe a Natanael, «vem e vê», D. Delfim Gomes considera que esta é talvez uma das formas mais bonitas de evangelizar. «Não precisamos de grandes discursos. Às vezes basta dizer com a própria vida. Vem e vê. Vem e vê uma comunidade que perdoa. Vem e vê uma família que permanece unida nas dificuldades. Vem e vê alguém que serve sem procurar reconhecimento; vem e vê um cristão que sofre, mas não perde a esperança. Vem e vê alguém que reza não porque a vida seja fácil, mas porque descobriu em Cristo uma presença que não abandona. A evangelização começa muitas vezes assim. Não com argumentos, mas com uma vida que torna visível aquilo que enuncia».