Arquidiocese de Braga -

28 setembro 2026

Opinião

A relevância do Padre Abílio Correia à luz dos desafios pastorais de Leão XIV

Pe. Pedro Daniel Marques

Início do processo de canonização do sacerdote bracarense celebra hoje 29 anos

No passado dia 8 de setembro, o Santo Padre Leão XIV dirigiu uma missiva aos Bispos da América Latina e do Caribe, a pedido do episcopado peruano, no contexto da celebração dos 300 anos da canonização do bispo São Turíbio de Mogrovejo (1530-
-1606), contemporâneo do grande arcebispo bracarense São Bartolomeu dos Mártires (1514-1590).

Nesta belíssima carta, o Papa tece uma refinada reflexão sobre o ministério episcopal, tendo como base o rito de acolhimento do novo bispo na sua catedral, a partir do qual sugere preciosas indicações aos prelados em missão no coração do continente americano, tal como o foi o próprio Robert Prevost (bispo de Chiclayo entre 2015 e 2023).

Ao tornar esta carta pública, Leão XIV dá oportunidade a que todos os fiéis possam refletir sobre a relação entre os pastores e o rebanho que lhes é confiado, já que uma das temáticas que permeia todo o texto é a importância da «caridade pastoral». Percorrendo as várias partes em que a carta se estrutura, veio-me à mente a figura incontornável do Servo de Deus Padre Abílio Gomes Correia, de quem celebramos hoje o 29.º aniversário da introdução da sua Causa de Beatificação e Canonização. Na verdade, muitos dos desafios deixados pelo Santo Padre foram também os que o pároco de São Mamede d’Este evidenciou ao longo dos seus 85 anos.

Leão XIV começa por sublinhar a importância do acolhimento à porta da catedral, onde o bispo se liga a um povo concreto, entra numa história à qual se liga, mas que «não começa com ele». Um pouco mais adiante, o pontífice evidencia o momento de oração diante do Sacrário, convidando «a fazer da adoração eucarística uma prioridade pastoral», pedindo que se ofereça «aos fiéis tempos e espaços para permanecerem diante d’Ele», incentivando a «oração prolongada». Como não recordar a chegada do jovem padre Abílio a São Mamede d’Este, no dia 7 de julho de 1907, onde, no meio de dificuldades e ruínas, encontrou um grande tesouro escondido? Passados 46 anos desse dia, em 1953, num apontamento autobiográfico, o padre Abílio escrevia: «foi aqui, nesta pobre freguesia e pobre igreja e junto ao seu pobre sacrário que eu recebi as maiores graças temporais e espirituais da minha já longa vida, foi aos pés do pobre sacrário d’esta pobre igreja que eu recebi as melhores inspirações da minha vida sacerdotal e paroquial, foi aos pés do pobre sacrário desta pobre igreja que eu recebi a paixão Eucarística que sempre conservei e desejo conservar até ao último instante da minha vida terrena».

Referindo-se à importância da celebração da Eucaristia, o Santo Padre acrescenta na sua carta: «O bispo, como todo o sacerdote, empresta a sua voz e as suas mãos a Cristo, Sumo e eterno Sacerdote, que atua por meio do seu ministério. Aquilo que celebra deve prolongar-se também na própria vida, cada vez mais unida à oferenda do Senhor, até que toda a sua existência se torne, em Cristo, uma oferenda ao Pai». E, de facto, isso mesmo fez o Pe. Abílio, dedicando-se não apenas à adoração e contemplação pessoal de Jesus Eucaristia, mas empenhando-se até à exaustão em diversas atividades de apostolado (o boletim «Mensageiro Eucarístico», retiros e pregações, organização e dinamização de congressos, monumentos eucarísticos, entre outras…).

A missiva pontifícia continua a elencar pontos-chave da vida pastoral dos ministros ordenados, salientando a importância de conhecer as realidades pastorais em profundidade («viver com o coração no céu e os pés no caminho»), frequentando a «escola da cruz», acompanhando também os seminários e seus seminaristas numa saudável e frutífera paternidade espiritual, «sobretudo nos primeiros anos de ministério». Ao longo da sua vida, o Pe. Abílio foi também confessor no Seminário de Nossa Senhora da Conceição, diretor espiritual no Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo e também confessor no Colégio da Regeneração (Instituto Monsenhor Airosa). Como capelão do Hospital de São Marcos (Braga), o padre Abílio serviu também o corpo sofredor do Senhor na carne dos irmãos doentes, não evitando esta «escola da cruz».

Assim, e inspirando-nos neste documento pontifício, creio que podemos inferir, de modo claro, que a vida do padre Abílio continua atual e exemplar para quantos hoje vivem o ministério sacerdotal ou se preparam para ele. Por outro lado, esta carta de Leão XIV oferece-nos uma frase muito bela que poderá servir de inspiração para a comunidade paroquial que anima a Causa do padre Abílio. Diz o Santo Padre, referindo-se à centralidade do Sacrário, que «os bispos passam; Cristo permanece (cf. Heb 13, 8). Os pastores mudam, surgem novas urgências e os projetos sucedem-se, mas a Igreja vive do Senhor». É verdade que a vida do padre Abílio passou e deixou uma marca que ainda hoje se sente na paróquia. Além disso, o Senhor a quem dedicou toda a sua vida permanece vivo e realmente presente no mesmo Sacrário, de onde continua a chamar e a convidar tantos e bons discípulos para prosseguirem este apostolado. Sejamos capazes de O ouvir.

Padre Pedro Daniel Marques

(Dicastério das Causas dos Santos – Vaticano)